O Museu Nacional da Imprensa, localizado no Porto, permanece encerrado ao público desde Maio de 2022, sem data prevista para reabertura. O que começou como um fecho devido a alegadas “questões de segurança e problemas estruturais no edifício” transformou-se num impasse, envolvendo a Câmara Municipal do Porto (CMP), a Associação Museu da Imprensa (AMI) e actores do sector cultural. Actualmente, o espólio encontra-se inacessível, o edifício sem actividade e o futuro da instituição por definir. 

Em Novembro de 2023, o antigo director do museu, Luiz Humberto Marcos, manifestou-se publicamente sobre esta situação: “Fechado desde Agosto de 2022 com o pretexto da falta de segurança, o Museu continua ‘encerrado temporariamente’”, alertou, numa carta aberta enviada ao Presidente da Câmara. “Temo que esteja a ser preparada a destruição silenciosa do Museu Nacional da Imprensa.” 

O caso agravou-se com a desvinculação oficial da CMP da Associação Museu da Imprensa, aprovada em Janeiro de 2024. A decisão foi justificada pelo vice-presidente da autarquia, Filipe Araújo, que afirmou: “A única solução que vimos como possível é salvaguardando aquilo que é o espólio e todas essas necessidades, sairmos desta associação que não cumpre o seu papel e trabalharmos no tema do Museu da Imprensa e de salvaguardar esse património.” No entanto, Araújo não esclareceu quais seriam os passos seguintes.

A oposição política reagiu de forma dividida. O PS considerou a saída “inevitável”, pedindo salvaguarda urgente do museu; o PSD votou a favor, defendendo que “a Câmara tentou todas as hipóteses possíveis”. Mas CDU e Bloco de Esquerda votaram contra: “A desvinculação é a pior solução possível”, afirmou a vereadora Ilda Figueiredo, da CDU, e Maria Manuel Rola, do BE, alertou para a possibilidade de trabalhadores e espólio ficarem “entregues a fantasmas”. 

A carta aberta de Luiz Humberto Marcos fez um retrato detalhado da actividade do MNI desde a sua inauguração, em 1997. Recordou que o museu organizou 750 exposições, criou o PortoCartoon-World Festival, implementou projectos como o País de Gutenberg e criou um acervo de dezenas de relíquias tipográficas, entre outros feitos. 

“Reconhecida como instituição de Utilidade Pública (governo de Cavaco Silva), a AMI obteve também o estatuto de ‘instituição relevante para o desenvolvimento científico e tecnológico do país e de Manifesto Interesse Cultural’. Com uma pequena equipa de técnicos, múltiplas doações e voluntariado, o museu foi crescendo e transformou-se numa instituição cultural forte, em termos nacionais e internacionais”, afirmou o ex-director. Acrescentou ainda que o espólio acumulado ao longo de décadas, composto por máquinas de impressão, tipografias históricas, arquivos únicos, está avaliado em mais de três milhões de euros. 

O edifício do museu, localizado na zona ribeirinha de Campanhã, é apontado como um dos factores que agravam a tensão. “Instalado numa zona que sempre despertou a gula imobiliária, o museu está neste momento ameaçado”, escreveu Humberto Marcos. A AMI detém o direito de utilização do edifício por mais 40 anos, fruto de uma escritura assinada em 1994.  

Na mesma carta, acusou a autarquia de não resolver problemas simples que justificaram o encerramento, como a avaria nos detectores de incêndio. “Fechado, o museu não cumpre a sua missão, fica asfixiado financeiramente e degrada-se o seu património”, acrescentou Luiz Humberto Marcos. 

O caso do Museu da Imprensa da Madeira 

Em sentido contrário, a actividade do Museu da Imprensa da Madeira parece estar “de vento em popa”. Localizado em Câmara de Lobos, o museu oferece aos visitantes uma viagem pela história da indústria gráfica e editorial da Região Autónoma. Inaugurado em Agosto de 2013, ocupa cerca de 2000 metros quadrados no edifício da Biblioteca Municipal e funciona desde a sua abertura em articulação com o Museu Nacional da Imprensa. 

A missão do museu inclui a inventariação, recuperação e exposição do património tipográfico, litográfico e cinematográfico da imprensa madeirense. O espólio reúne peças de grande valor histórico, como máquinas de escrever, uma impressora manual Golding & C.ª (1886), uma “Intertype” de 1911 e uma rara máquina rotativa da imprensa regional.

(Créditos da imagem: Museu Nacional da Imprensa)