O vídeo causador propagou-se na Internet a partir de finais de Julho. Vêem-se pessoas entrando no mar, com mulheres de véu na cabeça, carregando sacos, e alguns homens imóveis, só com as cebeças fora de água. Poucos segundos depois, o vídeo muda de ângulo e mostra três pessoas na praia, assistindo à cena em torno de uma máquina fotográfica montada num tripé e apontada para a praia. 

O turista julgou ter assistido à montagem deliberada de uma cena de afogamento de migrantes. O vídeo teve “partilhas” sucessivas na República Checa, na Polónia, França, Reino Unido e Espanha, antes de ser reutilizado pelos sites das teorias de conspiração. Pelas contas da France-Presse, em três semanas teve mais de 1,2 milhões de visionamentos no YouTube, Facebook e Twitter, o que levou a agência a ir verificar. 

O jornalista encarregado desta missão, Rémi Banet, começou por identificar o local da filmagem. Com a ajuda de elementos da paisagem reconhecíveis pelo GoogleMaps, chegou à cidade de Ierapetra, numa baía do sul de Creta. 

Para identificar o seu autor socorreu-se de uma aplicação desenvolvida pela AFP precisamente para fazer o fact-checking de vídeos, que funciona como uma espécia de “pesquisa reversa”, que permite chegar ao primeiro vídeo “postado”. Foi possível encontrar o autor, Marek Chrastina, e enviar-lhe uma mensagem, mas até à públicação do artigo a AFP não tinha ainda recebido resposta dele. 

Foi mais fácil encontrar a equipa de filmagem e a realizadora do documentário, Eleni Vlassi, também directora de um festival de documentários que se realiza em Ierapetra. 

O episódio histórico é da conquista e ocupação da cidade de Esmirna pelo exército turco, em Setembro de 1922. Milhares de gregos e de arménios que fugiam do fogo e dos massacres chegaram à praia de Esmirna (Izmir), onde houve mortes por afogamento. O título do documentário é “A Terra de Nossa Senhora das Dores”. 

Eleni Vlasi explicou à AFP que não tinha tido conhecimento do vídeo de Marek Chastina e das suas consequências “virais”. As pessoas na água, protagonistas daquele episódio, são “voluntárias de associações culturais de Creta”. 

Mas, como conclui o artigo aqui citado, “as teorias do complot  têm este efeito particular de resistirem a todas as tentativas de demolição:  todas as provas contra elas acabam por ser devolvidas e transformadas em prova suplementar da mesma teoria”:

“E, pela sua natureza ‘viral’, as teorias de conspiração serão sempre mais lidas do que a sua ‘desconstrução’.” 


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