À medida que aumentam as ameaças à liberdade de imprensa nos Estados Unidos, estudantes de jornalismo e responsáveis por meios universitários estão a rever práticas editoriais tradicionais para proteger repórteres, fontes e colaboradores, num contexto marcado pela pressão política e pelo endurecimento das políticas migratórias durante o segundo mandato de Donald Trump. 

Em universidades de todo o país, jovens jornalistas estão a adaptar regras consideradas fundamentais no exercício da profissão, passando a admitir com maior frequência o anonimato de autores e fontes, a utilização de pseudónimos e até a remoção de conteúdos publicados, decisões antes vistas como excepcionais no meio jornalístico. 

É o caso de Ryan Monke, editor-chefe do jornal estudantil The Hofstra Chronicle, da Universidade de Hofstra. Além de coordenar a redacção e a cobertura jornalística do campus, o estudante procura agora encontrar formas de proteger colegas internacionais de potenciais consequências legais relacionadas com imigração. 

Segundo Monke, o ambiente político actual levou o jornal a ponderar medidas inéditas, incluindo a publicação de artigos sob pseudónimo para estudantes estrangeiros residentes legais nos EUA que receiam exposição pública. “Agora estamos um pouco preocupados em manter os autores seguros”, afirmou. 

As preocupações intensificaram-se depois de, em Abril de 2025, o Student Press Law Center e outras entidades ligadas à comunicação social universitária terem emitido um alerta, recomendando aos meios estudantis a revisão das suas políticas sobre anonimato e remoção de conteúdos. 

O documento defendia que as tácticas utilizadas pelas autoridades de imigração para localizar estudantes internacionais e indocumentados obrigavam as redacções a reconsiderar “normas jornalísticas de longa data”. 

Também na Universidade da Flórida, Zoey Thomas, editora-chefe do Florida Independent Alligator, relata uma mudança significativa nas práticas editoriais. A estudante afirma que o número de casos em que o anonimato foi concedido aumentou drasticamente no último ano, num cenário em que as regras aprendidas nas aulas parecem rapidamente ultrapassadas. 

“Parece que todos os dias surgem novas regras básicas para o jornalismo”, afirmou Thomas, acrescentando que vários estudantes internacionais recusam ver os seus nomes associados a temas políticos, mesmo quando participaram activamente nas reportagens. 

A editora admite que estas decisões levantam dilemas éticos e profissionais difíceis de resolver. “Quero que os repórteres sejam reconhecidos pelo seu trabalho, mas tenho de respeitar que esse é um risco que nem sempre estão dispostos a correr”, explicou. 

Na Universidade do Arizona, Emma LaPointe, editora-chefe do Daily Wildcat, considera que parte do ensino do jornalismo ainda não acompanhou a transformação do contexto político e social. 

“Muitos dos meus professores continuam a ser muito mais rigorosos nessas questões do que eu ou os meus colegas editores”, afirmou. Para LaPointe, deveria existir maior flexibilidade na avaliação de situações em que estudantes se sentem vulneráveis ou ameaçados devido ao trabalho jornalístico que desenvolvem. 

As mudanças nas redacções universitárias reflectem um debate mais amplo sobre os limites entre os princípios tradicionais do jornalismo e a necessidade de garantir segurança num ambiente cada vez mais hostil para repórteres e estudantes estrangeiros nos Estados Unidos. 

(Créditos da imagem: Joe Orovitz/Hofstra Chronicle - imagem retirada do site do Poynter Institute)