Como o Novosti-26 se tornou uma plataforma jornalística independente destinada a adolescentes russos
Criado nos primeiros dias da invasão russa da Ucrânia, o Novosti-26 tornou-se uma das poucas plataformas independentes dedicadas a explicar política, guerra e actualidade a adolescentes russos.
O projecto nasceu pela iniciativa de Linor Goralik, autora e artista cuja família emigrou da antiga União Soviética para Israel. Muito antes do início da guerra, Goralik já pretendia criar um meio de comunicação destinado a jovens russos, por considerar que muitos adolescentes conseguiam identificar fontes credíveis, mas não possuíam ainda o contexto necessário para compreender plenamente os acontecimentos políticos e sociais.
Com o início da invasão da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, a ideia ganhou urgência. “Simplesmente comecei a produzir notícias”, recorda Goralik, que iniciou o projecto sozinha, publicando vídeos explicativos ao fim-de-semana. Quatro anos depois, o Novosti-26 transformou-se numa redacção financiada por subsídios, reunindo jornalistas e até um psicólogo responsável por apoiar a equipa na resposta às mensagens enviadas pelos leitores.
O meio dedica-se sobretudo a temas que afectam directamente os adolescentes na Rússia, como alterações na legislação educativa, o serviço militar obrigatório ou as restrições à Internet. Ao mesmo tempo, evita suavizar a cobertura da guerra.
“Seguimos a lógica de que se pode falar com adolescentes sobre absolutamente tudo”, afirma Goralik. A abordagem editorial do Novosti-26 passa por explicar episódios como o massacre de civis em Bucha de forma clara e directa, recusando a linguagem adoptada pelas autoridades russas, que descrevem a guerra como uma “operação militar especial”.
Segundo a fundadora, os leitores valorizam precisamente essa frontalidade. “Eles compreendem que, se acontecer alguma coisa, você vai dizer as coisas como elas são”, explica.
Além da informação, o projecto assumiu também uma dimensão de apoio emocional e psicológico. Muitos adolescentes escrevem para a redacção com relatos de medo, ansiedade ou dúvidas sobre como lidar com o ambiente político e social do país.
Goralik recorda o caso de uma rapariga de 14 anos, residente perto da fronteira com a Ucrânia, que perguntou se existiam instruções oficiais sobre como sobreviver numa floresta em caso de ataque militar. Com apoio do psicólogo da equipa, a resposta sugeriu que a jovem frequentasse aulas de autodefesa para recuperar algum sentimento de controlo sobre a situação.
As preocupações relacionadas com saúde mental tornaram-se frequentes nos seminários organizados pelo Novosti-26, onde os adolescentes podem colocar perguntas de forma anónima. “Eles preocupam-se com a forma de viver. Não com a lei que vai ser aprovada”, resume Goralik.
Ao mesmo tempo, o meio enfrenta os crescentes bloqueios impostos pelas autoridades russas à Internet e às plataformas digitais. O Telegram, principal canal utilizado pelo projecto para chegar ao público, tem sido alvo de restrições, levando a equipa a criar uma newsletter por e-mail como alternativa.
Por razões de segurança, o Novosti-26 aconselha os leitores a apagarem os e-mails depois de os lerem, receando que possam enfrentar problemas com as autoridades. “Nunca pensámos que viveríamos para ver o dia em que isto não fosse uma piada de espionagem”, afirma Goralik.
A equipa evita também incentivar os adolescentes a envolverem-se em activismo público ou a exporem as suas opiniões políticas. Em vez disso, promove orientações sobre segurança digital e pessoal, insistindo na importância de proteger os próprios pensamentos e opiniões num ambiente repressivo.
(Créditos da imagem: Captura de ecrã da página de Instagram do Novosti-26)