Empresas de media não querem perder o comboio da IA, mas ainda não sabem o “preço do bilhete”…
A massificação da inteligência artificial está a forçar as empresas de media a reforçar o investimento em tecnologia, com as ferramentas generativas a serem usadas em praticamente toda a cadeia de produção e distribuição de conteúdos. O tema esteve em debate na conferência sobre os impactos da IA na comunicação social, no jornalismo e nas democracias, realizada na The Square, no âmbito da Lisbon AI Week, com Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, e Rudolf Gruner, director-geral do Observador.
Na Media Capital, o orçamento de 2027 será o primeiro a incluir uma rubrica dedicada ao custo da IA, para uma empresa com 1100 pessoas. "Não sei se os accionistas irão gostar do número que aparecerá à frente", admitiu Pedro Morais Leitão. "Sabemos que queremos ir a bordo deste comboio, que avança a grande velocidade, mas ainda não sabemos o preço do bilhete."
O gestor reconheceu que o Grupo só recentemente, depois das férias, começou a elaborar um plano estruturado para a tecnologia, assumindo que só agora a encara de forma mais institucional. Existe uma equipa de IA e um responsável que responde por objectivos. A própria IA produziu um documento com 70 iniciativas, distribuídas por seis frentes, que terá de implementar nos próximos anos.
No Observador, o percurso começou em 2024, quando o Grupo iniciou o desenvolvimento de um plano estruturado, que também exige reforço de investimento. Rudolf Gruner explicou que a empresa tem um responsável por todos os processos de IA, com estratégia testada e validada internamente e responsáveis de equipa na redacção, na área comercial e na financeira. Já existe até um arquivo de prompts, e foram feitas acções de formação para uniformizar competências.
A tecnologia está a ser usada pela Observador On Time para recuperar digitalmente seis anos de arquivo da Rádio Observador, emitidos entre 2019 e 2025, que ficarão disponíveis no site. "As transcrições automáticas, hoje, já são feitas com muita qualidade", salientou Gruner. Por outro lado, era "humanamente impossível" ter alguém a ouvir 50 a 60 episódios novos de podcast por dia para criar texto.
Além de analisar grandes volumes de documentos, vídeos e bases de dados, a IA generativa permite transcrever, traduzir, resumir e até produzir automaticamente notícias. É também usada em análises de audiência, na decisão editorial e na personalização da informação.
A grande preocupação dos gestores prende-se com os custos futuros, que irão depender do que as empresas de IA vierem a cobrar pelas licenças de acesso às inovações mais disruptivas. "Há um problema de escalada de custos que se adivinha. Ainda ninguém sabe quem vai pagar a onda de investimentos que aí vem", afirmou Pedro Morais Leitão, adiantando que a Media Capital já contratou alguém com perfil técnico para decidir o que faz sentido do ponto de vista tecnológico.
Rudolf Gruner apontou que a estimativa de investimento das principais empresas de IA em 2027 é de 600 mil milhões de euros. Como, dos mil milhões de utilizadores globais, só 5% subscrevem os serviços, "alguém há de ter de pagar isto".
(Créditos da imagem: Magnific)