Como a própria inteligência artificial pode contribuir para corrigir os danos tecnológicos
A Press Gazette lançou uma nova ferramenta para ajudar a identificar conteúdos gerados ou manipulados por inteligência artificial antes de serem publicados. Desenvolvida em parceria com a empresa tecnológica Flip-Pay, a plataforma Made by Humans procura reduzir os riscos editoriais e legais associados à utilização não autorizada de IA nos media.
A Press Gazette já fez várias investigações sobre a crescente utilização de inteligência artificial para produzir conteúdos falsos que acabam por entrar no circuito noticioso. Entre os casos identificados estão falsos especialistas que apresentam comentários gerados por IA e a falsa jornalista freelancer Margaux Blanchard, que utilizou a tecnologia para apresentar reportagens inventadas que chegaram a ser publicadas.
A publicação investigou também um caso em que vários jornais foram enganados por uma imagem manipulada por IA divulgada pela polícia tailandesa. A imagem alegava falsamente que detectives experientes se tinham disfarçado de dançarinas para participar numa operação antidroga.
Uma resposta aos riscos da IA
A plataforma reúne tecnologias de detecção de IA da Pangram e da Identifai num único painel. O sistema permite analisar texto, imagem, vídeo e áudio, procurando sinais de geração ou manipulação através de inteligência artificial.
A ferramenta pode ser integrada directamente nos sistemas de gestão de conteúdos, permitindo que os editores recebam um alerta quando estão prestes a publicar material que apresente indícios de manipulação por IA. A Press Gazette tornou-se a primeira publicação a testar o sistema no seu próprio CMS.
A necessidade de ferramentas deste género é demonstrada por um inquérito realizado pela Press Gazette junto de mais de 200 editores, jornalistas e outros profissionais do sector. Segundo os resultados, 95% dos inquiridos consideram que o conteúdo gerado por IA deve ser identificado perante os leitores, mas 64% afirmam que as suas organizações não dispõem de uma forma fiável de verificar utilizações não autorizadas da tecnologia.
Por outro lado, 87% acreditam que algum tipo de garantia de conteúdo feito por humanos poderia aumentar a confiança dos leitores nos sites das publicações.
Para Dominic Ponsford, editor-chefe da Press Gazette, o desenvolvimento da ferramenta está directamente relacionado com as investigações realizadas pela publicação. “Baptizamos as nossas investigações sobre o conteúdo gerado por IA de ‘Guerras da Realidade’ porque o jornalismo de qualidade, escrito por humanos, luta pela sobrevivência contra disparates enganosos escritos por IA”, afirmou.
O responsável acrescentou que já foram identificados casos em que órgãos de comunicação social tiveram de retirar centenas de artigos depois de descobrirem que determinados elementos eram enganadores ou tinham sido gerados por IA. “Esta ferramenta ajudará a impedir a publicação destes artigos”, afirmou Ponsford.
O Made by Humans não pretende impedir a utilização de inteligência artificial nas redacções. A própria Press Gazette admite recorrer à tecnologia para tarefas como transcrição, pesquisa e análise de dados.
A diferença está em garantir que a utilização da IA não elimina o controlo editorial humano. “O Made by Humans ajuda a proteger as editoras dos enormes danos de reputação que podem advir da publicação de material enganador gerado por IA e é uma ferramenta para apoiar, e não substituir, o julgamento editorial humano”, afirmou Ponsford.
Segundo o editor-chefe, a publicação continua a utilizar ferramentas de IA em determinadas tarefas, mas procura garantir que “a criatividade, a originalidade e a curiosidade humanas sustentam o nosso jornalismo”.
A plataforma permite ainda verificar a originalidade dos conteúdos, identificar possíveis casos de plágio e perceber se determinado material já foi publicado noutro local. Analisa conteúdos em inglês, francês, espanhol e alemão.
As análises e interacções ficam também elas registadas, criando um histórico que pode ser utilizado para efeitos de conformidade e auditoria. As publicações podem gerar relatórios e obter um selo de confiança para apresentar nos seus sites, indicando aos leitores e anunciantes que existe um processo de verificação associado ao uso de IA.
A detecção de deepfakes
A Identifai, especializada na detecção de deepfakes, é responsável pela análise de imagens, vídeos e áudios. A empresa afirma ter registado cerca de 10 mil incidentes de deepfake reportados em meios de comunicação social em inglês ou em plataformas de redes sociais desde Janeiro de 2020. A frequência destes casos terá aumentado de forma significativa: de quatro incidentes reportados em janeiro de 2020 para mais de três mil em Março de 2026.
Kate Burns, vice-presidente da Identifai para a região da Europa, Oriente Médio e África, alerta para a facilidade com que este tipo de conteúdo pode actualmente ser produzido. “Quase qualquer pessoa pode criar um deepfake hoje em dia, e os mais perigosos são idênticos aos verdadeiros”, afirmou.
Segundo a responsável, embora muitos conteúdos sejam identificados por verificadores de factos ou equipas especializadas antes de chegarem ao público, as equipas editoriais encontram-se “na linha da frente”.
Para Burns, a ferramenta pretende dar aos meios de comunicação uma forma de colocar uma questão cada vez mais difícil de responder apenas através da avaliação humana: “isto é real?”.
Verificar textos ao nível da frase
A componente de texto é assegurada pela Pangram, cujo sistema consegue identificar conteúdos produzidos pelos principais laboratórios de IA, incluindo OpenAI, Anthropic, Google, Meta e DeepSeek.
O modelo Pangram 4 foi concebido para detectar conteúdos gerados pelos modelos mais recentes e disponibiliza uma análise ao nível da frase. A empresa afirma ainda que o sistema consegue distinguir entre textos integralmente gerados por IA e conteúdos escritos por humanos que foram posteriormente melhorados com recurso à tecnologia.
Esta distinção é particularmente relevante para as redacções, onde a inteligência artificial pode ser utilizada em tarefas consideradas de menor risco, como transcrições, pesquisa ou pequenas edições.
Max Spero, director-geral da Pangram, considera que esta capacidade é importante para evitar que qualquer utilização de IA seja automaticamente tratada como equivalente à geração integral de um conteúdo.
“O Pangram 4 também distingue entre textos humanos melhorados por IA e textos totalmente gerados por IA”, afirmou. Segundo o responsável, isso permite que jornalistas que utilizam a tecnologia para transcrições, pesquisas ou edições ligeiras continuem a recorrer à ferramenta sem que essas utilizações sejam confundidas com a produção integral de uma notícia por inteligência artificial.
Para Paul McCarthy-Brain, director-geral da Flip-Pay, o desafio vai para além da questão da autenticidade de um conteúdo individual e pode afectar a própria autoridade das organizações jornalísticas. “A IA está a minar a sua autoridade comercial e, agora, também a qualidade e a reputação do seu conteúdo editorial”, afirmou.
Trata-se também de um exemplo de como a própria inteligência artificial pode ser utilizada para responder aos riscos criados pela tecnologia: “É um excelente exemplo de como a IA pode ser utilizada para beneficiar as editoras”.
(Créditos da imagem: imagem retirada do site America's Newspapers)