A rápida expansão da Inteligência Artificial (IA) está a transformar o ecossistema informativo e obriga o jornalismo a redefinir o seu papel na sociedade. Esta ideia é defendida por Carlos Castilho num artigo publicado no Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, que considera inevitável uma mudança estrutural na profissão perante o aumento exponencial da produção automatizada de conteúdos. 

Segundo o autor, o modelo tradicional de jornalismo "já não consegue mais manter o fluxo necessário de informações e notícias no nível de confiabilidade exigido pela sociedade contemporânea". Na sua perspectiva, a IA representa o ponto de viragem de um processo iniciado com a digitalização e a internet. "A pá de cal está a ser dada pela inteligência artificial", escreve. 

O autor alerta que ferramentas como ChatGPT, Gemini, Copilot, Anthropic e Llama estão a acelerar aquilo que descreve como um "caos informativo", marcado pela produção maciça de informação cuja fiabilidade nem sempre pode ser verificada. 

Como exemplo dos desafios colocados pela IA, refere uma decisão recente de um tribunal de Munique, na Alemanha, que responsabilizou a Google por erros cometidos pelo sistema Gemini em relatórios destinados a duas empresas alemãs. Recorda também um relatório divulgado pelo The New York Times, com base num estudo da empresa Oumi, segundo o qual o Gemini acertou em 91% dos relatórios analisados, mas apresentou erros nos restantes 9%, um nível de falhas que, na opinião do autor, pode comprometer decisões críticas. 

Apesar das limitações identificadas, Carlos Castilho sublinha que o debate não deve centrar-se na aceitação ou rejeição da tecnologia. "Não é uma questão de achar a IA boa ou má. Ela simplesmente já existe e vai ficar, como ficaram tantas outras inovações tecnológicas." 

O novo papel para os jornalistas 

Na análise apresentada, a Inteligência Artificial está a assumir tarefas tradicionalmente desempenhadas por jornalistas, como a recolha, organização, tradução, recombinação e síntese de informação. 

O autor considera que o valor acrescentado do jornalismo deixará de estar na produção de conteúdos e passará a concentrar-se na sua interpretação. "O que sobrou para o jornalista é analisar como o resultado do trabalho do software, ou dos vários softwares de IA interfere na vida de pessoas, organizações, comunidades e países", afirma. 

Castilho acrescenta que "a análise é, na verdade, um processo de aprendizagem a partir dos elementos fornecidos pela Inteligência Artificial", defendendo que essa capacidade de aprendizagem será o principal activo da profissão. 

O jornalismo como sistema 

Assim, é proposta uma reformulação do próprio conceito de jornalismo, defendendo a criação de um sistema que integre ferramentas de IA, conhecimento empírico, competências profissionais e participação pública. 

"O jornalismo precisa transformar a aprendizagem informativa num sistema", escreve, explicando que esse modelo deverá incorporar "as ferramentas de IA, o conhecimento empírico das pessoas, a expertise no manejo da informação e o envolvimento profissional/público". 

Na sua perspectiva, este novo sistema será caracterizado por uma adaptação permanente, acompanhando a constante evolução tecnológica e informativa. 

O autor considera igualmente que a crescente complexidade dos algoritmos torna cada vez mais difícil verificar integralmente a origem e o tratamento da informação produzida por sistemas de IA. Por esse motivo, entende que o foco do jornalismo deverá deslocar-se da verificação absoluta da informação para a análise dos seus efeitos concretos na sociedade. 

"A melhor forma de fazer uma avaliação é verificar como a notícia ou informação muda as rotinas, regras e valores do indivíduo", sustenta. 

Nesse contexto, defende que o jornalismo poderá assumir uma função de orientação pública, ajudando cidadãos a compreender e interpretar o impacto da informação produzida ou processada por inteligência artificial. 

"O grande desafio já não é produzir textos, sons e imagens, mas sim como textos, sons e imagens, produzidos com o uso de ferramentas de IA, incidem sobre a vida das pessoas, comunidades e nações", conclui. 

(Créditos da imagem: Unsplash)