A integração da inteligência artificial nas redacções não representa, por si só, uma ameaça existencial ao jornalismo. Para a jornalista e socióloga Jaqueline Nichi, o verdadeiro risco está noutro lado: “A IA não ameaça o jornalismo. A submissão às plataformas, sim”, começa por afirmar num artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI. 

No seu texto, Nichi rejeita o enquadramento simplista que domina o debate público. “A discussão séria sobre inteligência artificial no jornalismo começa quando se abandona um falso dilema: nem tecnofobia, nem deslumbramento.” A autora lembra que a IA já está presente há anos em tarefas como transcrição, análise de dados ou tradução. Mais recentemente, deu-se a “popularização em escala” desta ferramenta, que permite agora produzir textos, imagens, áudio e vídeo. 

Apesar disso, sublinha, o núcleo da prática jornalística mantém-se: “o jornalismo continua a ser uma prática de verificação, contexto, discernimento e responsabilidade pública.” A tecnologia pode trazer ganhos de eficiência, mas também riscos significativos. “O ganho de eficiência existe. O risco de erosão da confiança também.” 

A transparência, frequentemente apontada como solução, é considerada insuficiente. “Dizer ‘este conteúdo usou IA’ sem explicar o que foi automatizado, o que foi revisto, quem responde pelos erros e onde entrou o trabalho humano é oferecer um rótulo sem contexto.” Para Nichi, a relação de confiança com o leitor exige mais do que avisos genéricos. 

A jornalista chama ainda a atenção para uma dimensão estrutural menos visível: a dependência das grandes plataformas tecnológicas. “A adopção de IA tende a ocorrer por meio do aluguer de APIs e sistemas fechados controlados por big techs”, o que pode conduzir a um “achatamento da diversidade editorial” e a conteúdos “cada vez mais parecidos, mais previsíveis e menos enraizados no território”. 

Outro risco reside na própria natureza dos sistemas generativos. “Eles erram com convicção, produzindo conteúdo persuasivo, bem-acabado e factualmente falso”, alerta, acrescentando que estas tecnologias “tendem a reproduzir vieses raciais, de género, idioma e classe presentes nos dados de treinamento”. 

Ainda assim, Nichi não rejeita a IA. Pelo contrário, identifica usos relevantes: “Triagem de documentos extensos, apoio à investigação baseada em dados, transcrição, acessibilidade, tradução inicial” e outras tarefas que podem libertar tempo para o trabalho essencial de reportagem. 

É neste ponto que emerge a dimensão política da tecnologia. “A IA pode servir para devolver tempo ao jornalismo ou para esvaziá-lo de sentido.” E reforça: “A tecnologia não decide isso sozinha. Quem decide são empresas, redacções, editores, marcos regulatórios e culturas profissionais. E, até aqui, o debate público tem corrido atrás do prejuízo”. 

No final, a autora propõe uma mudança de foco: “Em vez de insistir no anúncio apocalíptico do fim do jornalismo, como podemos repensar as alianças possíveis entre humanos e não humanos?” Para Nichi, o cerne da questão está na capacidade crítica: “Uma má resposta muitas vezes nasce de uma má pergunta.” 

A conclusão é clara: “No fundo, a crise não é de ferramenta. É de critério.” E deixa um aviso que resume o seu argumento: “A máquina pode redigir um parágrafo. O que ela não faz é assumir a consequência pública de um erro.” 

Assim, mais do que a presença da tecnologia, o que está em jogo é a forma como ela é integrada. “Se for em nome do interesse público, ela pode ter utilidade. Se for em nome da aceleração cega, da redução de custo a qualquer preço e da terceirização do juízo editorial para plataformas opacas, então o problema não será a inteligência artificial. Será a desistência humana do próprio jornalismo.”

(Créditos da imagem: Pexels)