A inteligência artificial (IA) está a transformar profundamente o trabalho jornalístico, mas nem sempre de forma linear. No Reino Unido, profissionais dos media descrevem-na como “uma faca de dois gumes”: ao mesmo tempo que aumenta a eficiência, levanta sérias preocupações éticas e cognitivas. 

Por um lado, ferramentas como os resumos automáticos de motores de busca estão a reduzir o tráfego para os sites noticiosos, obrigando as redacções a repensar modelos de negócio. Por outro, práticas enganosas, como os chamados “falsos especialistas”, tornam mais difícil distinguir informação credível de conteúdo fabricado. 

Ainda assim, a adopção é massiva. Segundo a Fundação Thomson Reuters, “81% dos jornalistas utilizam IA diariamente”, apesar de “53,4% manifestarem receios quanto ao seu impacto na ética e no jornalismo”. 

Ferramentas que estão a mudar a prática 

Entre as soluções mais utilizadas, destacam-se plataformas que prometem maior rigor e eficiência no tratamento de informação. 

Ao Press Gazette, Harriet Meyer, fundadora da AI for Media, sublinha o potencial de ferramentas como o Notebook LM da Google: “é um modelo de IA chamado ‘grounded’, que extrai informações citadas do material de origem.” A mesma especialista acrescenta que a integração com sistemas de pesquisa avançada permite “solicitar as fontes mais relevantes para as matérias”. 

Além disso, estas ferramentas permitem converter dados, gerar tabelas, criar infografias e até transcrever conteúdos audiovisuais. “Os jornalistas podem carregar dados, analisá-los criticamente e identificar lacunas”, explica Meyer. 

Outras soluções, como os chamados “projectos” em modelos generativos, permitem maior controlo. “Podem fixar instruções específicas e focar o modelo nos dados carregados”, refere, destacando ainda a capacidade de analisar grandes volumes de informação em pouco tempo, algo difícil para humanos. 

Serviços de transcrição como Trint ou Otter tornaram-se aliados frequentes nas redacções. Simon Bainbridge, antigo director editorial do British Journal of Photography, admite: “o Otter tornou o jornalismo praticamente sustentável — já não tenho de passar horas ou mesmo dias a transcrever.” 

Algumas redacções proíbem estas ferramentas devido à forma como utilizam os dados. E, mesmo do ponto de vista editorial, os resultados estão longe de ser perfeitos. 

Bainbridge testou ainda versões personalizadas de modelos de linguagem para limpar transcrições, mas encontrou limitações: “por mais que insistisse numa transcrição literal, sem repetições e corrigindo erros óbvios, a IA quer sempre ‘melhorar’ o texto.” 

O problema vai além da precisão. “A IA quer impor uma fraseologia [...] que é uma espécie de estilo académico condensado que, quando analisado, muitas vezes não diz nada de concreto, mas soa inteligente”, critica. 

Ferramentas mais avançadas, com capacidades autónomas (conhecidas como IA “agente”) estão a redefinir o conceito de assistência digital. 

O jornalista tecnológico Kane Fulton descreve a diferença: “usar ferramentas tradicionais é como receber uma pilha de documentos; usar sistemas mais avançados é como ter um investigador ao lado.” Estas plataformas podem organizar ficheiros, analisar informação e até interagir com o utilizador para refinar pesquisas. 

Investigações com assistência da IA 

Ferramentas de pesquisa com IA também ganharam espaço no trabalho jornalístico. Pete Warren, especialista em investigação, utiliza várias em conjunto para aprofundar temas: “utilizo a Perplexity porque me parece adequada para um jornalista, tal como o ChatGPT e o Anthropic Claude. Utilizo-as para pesquisas mais matizadas do que as do Google ou da Microsoft. Utilizo várias delas em conjunto para encontrar informações e pessoas”. Mas estabelece um limite claro: “verifico sempre as fontes. Não as utilizo para escrever porque isso leva à morte cerebral.” 

A expressão resume uma preocupação que é crescente: a dependência excessiva da IA pode comprometer competências fundamentais. “Se não continuarmos a escrever por nós próprios, perdemos as competências”, alerta. 

Warren compara o fenómeno ao uso constante de correctores ortográficos: “a ortografia torna-se preguiçosa”, acrescentando que “as pessoas abdicam da responsabilidade com muita facilidade. A IA corrói a confiança e a experiência.” 

O risco de perder a autonomia 

Para ilustrar, o jornalista recorre a um exemplo da ciência. Após entrevistar o neurocientista Edvard Moser, recorda: “o GPS é um excelente exemplo. Perdemos a capacidade de navegar por nós próprios.” Durante a pandemia, muitos perderam até os seus mapas mentais. 

“A IA é como um GPS. Tem todos os dados”, conclui, mas depender dela pode significar perder a capacidade de pensar criticamente. 

A IA veio para ficar nas redacções. Ajuda a detectar padrões, acelerar processos e ampliar capacidades. Mas o seu uso exige equilíbrio. Como resumem vários profissionais, o desafio não está em usar, mas em saber quando parar.

(Créditos da imagem: Pexels)