A empresa de media belga Mediahuis está a testar a utilização de inteligência artificial para automatizar a produção de notícias breves e de última hora, numa tentativa de libertar os seus cerca de dois mil jornalistas para trabalhos de maior profundidade editorial. 

O projecto-piloto centra-se na chamada produção noticiosa de “primeira linha”, como alertas e peças curtas, permitindo que os jornalistas se concentrem em “jornalismo de assinatura”, incluindo investigação, análise e grandes reportagens. A iniciativa foi apresentada por Ana Jakimovska, directora de estratégia de inteligência artificial da empresa, durante o evento FT Strategies News in the Digital Age. 

Segundo Jakimovska, a aposta editorial da Mediahuis passa por reforçar o trabalho jornalístico que exige contacto directo com fontes e comunidades. “Apostamos fortemente no jornalismo de assinatura, em falar com as pessoas, bater às portas e compreender a ligação profunda com as comunidades que servimos”, afirmou. Ao mesmo tempo, reconhece que os meios de comunicação continuam a necessitar de responder rapidamente às notícias de última hora. 

O sistema em teste envolve vários agentes de IA responsáveis por diferentes etapas do processo editorial. Um agente produz o texto inicial, enquanto outro selecciona imagens e vídeos. Seguem-se sistemas destinados à verificação factual, à análise de possíveis problemas legais e à confirmação de que a informação não foi interpretada de forma incorrecta. 

Num passo adicional, um agente acompanha as reacções públicas à notícia, analisando o debate nas redes sociais e noutras plataformas. Caso detecte níveis elevados de polarização ou opiniões divergentes, o sistema pode sugerir a um editor que o tema seja desenvolvido num artigo de análise ou opinião. 

Apesar da automatização, a empresa sublinha que a decisão final continua nas mãos dos jornalistas, responsáveis por rever e validar o conteúdo antes da publicação. 

Para alimentar o sistema, a Mediahuis está também a construir uma vasta base de dados com fontes institucionais e informativas, incluindo parlamentos, agências noticiosas, centros de investigação, empresas e líderes políticos nas redes sociais. 

De acordo com Jakimovska, a reacção interna ao projecto tem sido positiva. “Quando apresentei esta proposta, pensei que ia haver uma enorme reacção negativa”, disse. “Mas os directores editoriais foram visionários ao reconhecer que o melhor jornalismo deve concentrar-se no trabalho de maior qualidade.” 

(Créditos da imagem: Freepik)