A capacidade de gerar ideias originais como contraponto à Inteligência Artificial
Uma nova investigação publicada na revista Journalism Practice, por Shangyuan Wu, investigadora da Universidade Nacional de Singapura, procura perceber que competências os jornalistas estão a perder com a adopção da IA e quais estão, pelo contrário, a ser reforçadas.
Para o estudo, a investigadora entrevistou 14 jornalistas em Singapura, cidade que funciona como um dos principais centros de desenvolvimento de IA na Ásia e que reúne uma diversidade de redacções locais, regionais e internacionais. Os participantes foram seleccionados de diferentes tipos de meios: imprensa escrita, radiodifusão, meios online e agências de notícias.
Uma das preocupações mais recorrentes entre os entrevistados prende-se com as competências fundamentais de investigação. Como as ferramentas de IA generativa conseguem produzir rapidamente relatórios de contexto e realizar pesquisas online, alguns jornalistas receiam que isso possa levar à perda progressiva da capacidade de rastrear informação e verificar fontes primárias. O estudo aponta ainda um efeito menos óbvio: o acesso facilitado a resumos de contexto pode reduzir a motivação dos repórteres para realizarem entrevistas com especialistas ou conversarem directamente com pessoas para aprofundar um tema.
No conjunto, os entrevistados manifestaram receio de que as ferramentas de IA estejam a contribuir para aquilo que um dos participantes descreveu como uma profissão a tornar-se mais "burra", já que a geração automática de perguntas, pesquisas e rascunhos de artigos pode vir a corroer a capacidade dos próprios jornalistas de pensarem por si.
Paralelos com outras inovações do passado
Nem todos os entrevistados partilham este pessimismo. Alguns traçaram paralelos com outras inovações tecnológicas que, no passado, também geraram receios semelhantes, como as ferramentas de transcrição automática ou os motores de busca. Para estes jornalistas, a IA funciona sobretudo como uma forma de optimizar processos de investigação, e não como um substituto do trabalho manual de apuração e redacção.
As competências que a IA está a reforçar
Se por um lado o estudo identifica riscos de perda de competências, por outro aponta várias áreas em que os jornalistas estão, na prática, a desenvolver-se mais. Uma delas é a capacidade de discernimento: como as ferramentas de IA produzem regularmente informação distorcida, tendenciosa ou incompleta, os jornalistas veem-se obrigados a reforçar a sua capacidade de distinguir facto de ficção, bom de mau jornalismo, e conteúdo enviesado de conteúdo imparcial.
A verificação de factos e a edição são outras competências identificadas como estando a ganhar peso. Vários entrevistados destacaram ainda que as ferramentas de IA continuam a ser fracas a "contar histórias", cabendo aos jornalistas a tarefa de ligar a informação de forma convincente e persuasiva.
A originalidade como competência-chave
O estudo destaca também a capacidade de gerar ideias originais como uma competência cada vez mais valiosa, à medida que textos, áudios e vídeos gerados por IA inundam os sistemas de informação. Como resumiu um dos entrevistados, a IA consegue reproduzir aquilo que já existe, mas não consegue gerar verdadeira inovação ou criatividade, uma tarefa que continua a ser exclusivamente humana.
O estudo completo aprofunda outras áreas potenciais de aperfeiçoamento e de perda de competências entre os profissionais do sector, e pode ser consultado na revista Journalism Practice.
(Créditos da imagem: Freepik)