“A ética jornalística não pode ser automatizada”
Num artigo de opinião publicado nos Cuadernos de Periodistas da APM, parceira do CPI, a investigadora Pilar Sánchez-García defende que os dilemas éticos que a inteligência artificial (IA) coloca ao jornalismo não são, no fundo, tão novos quanto parecem. Para a autora, esses dilemas "talvez não sejam questões novas, mas sim intrínsecas à nossa profissão". Esta ideia serve de ponto de partida para uma reflexão estruturada em três níveis: o compromisso individual de cada jornalista, o desafio empresarial de integrar a IA nas redacções e o desafio colectivo da autorregulação do sector.
Sánchez-García recorre a uma imagem para ilustrar que os critérios éticos do jornalismo não mudam com a tecnologia: o retrato de um jornalista que "tem a vocação como marca registada" e trabalha "com o 'Bluetooth' activo da ética". A partir desse retrato, questiona se esse profissional publicaria conteúdo copiado, usaria imagens não identificadas ou "deixaria a sua mente parar de formular as suas próprias perguntas", perguntas retóricas que, para a autora, mostram que os limites éticos já existiam antes de a IA chegar às redacções.
A autora recusa uma leitura catastrofista da tecnologia. Segundo escreve, é possível entender a IA "como uma tecnologia que nos desperta do pessimismo" num momento em que o jornalismo precisa de recuperar o seu papel de intermediação. Ainda assim, reconhece que os riscos são reais, citando o caso do jornalista despedido pelo New York Times por ter usado IA treinada com um excerto de um artigo do Guardian. Contudo, rejeita atribuir a culpa à tecnologia em si: "os limites da sua utilização são definidos pela ética jornalística", a mesma que já existia "na era pré-internet, a era dos telefones fixos e das máquinas de escrever".
A autora conclui que "a ética jornalística não depende da tecnologia; não pode ser automatizada."
Três perguntas para orientar a profissão
Sánchez-García propõe que órgãos de comunicação e jornalistas se guiem por três perguntas centrais: "Como contamos a história? Como integrá-la? E como regulamentá-la?"
Na resposta à primeira pergunta, defende que compreender a IA é, em si mesmo, "uma questão de ética jornalística" — os jornalistas não podem noticiar rigorosamente aquilo que não compreendem. A autora recorda ainda que a cobertura da IA pelos media começou marcada pelo alarmismo e por aquilo que descreve como "uma histeria mediática", antes de evoluir, segundo estudos que analisou na Península Ibérica, para "uma narrativa menos sensacionalista, mais informativa e neutra".
Quanto à integração da tecnologia nas redacções, a autora defende a criação de "processos de automação supervisionados e equilibrados que priorizem o profissionalismo humano". Cita ainda um estudo da Universidade de Valladolid que revelou a surpresa de engenheiros de IA perante "a lentidão, desconfiança e falta de compreensão" dos media na adopção destas ferramentas, em comparação com outros sectores.
Manuais internos e o compromisso com a transparência
Na terceira dimensão do artigo, a autorregulação, Sánchez-García nota que vários órgãos de comunicação social já publicaram manuais internos sobre o uso da IA, apresentados publicamente "como compromissos de credibilidade e transparência". Entre os exemplos analisados está o guia do The Guardian, que assenta em três princípios: "formação da equipa, promoção do desenvolvimento de ferramentas e transparência".
Da análise que fez a vários manuais internacionais, a autora identifica três pontos recorrentes: limitação do conteúdo gerado por IA, compromisso com a transparência e supervisão baseada no respeito pelos direitos de autor. Sobre a identificação de conteúdo gerado por IA, compara essa exigência à "credibilidade adicional de um chef que coloca uma divisória de vidro entre os seus clientes e a comida", uma forma de garantir a confiança do público através da visibilidade.
O artigo termina com uma nota que resume a tese central da autora: o sucesso da integração da IA no jornalismo vai depender de "um compromisso colectivo entre as empresas noticiosas e os seus próprios jornalistas", assente na premissa de que a ética "não pode ser automatizada no Jornalismo com J maiúsculo".
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