Verificação de factos enfrenta dificuldades financeiras
Os verificadores de factos enfrentam uma combinação de dificuldades financeiras, retracção do apoio das grandes plataformas tecnológicas e novas ameaças colocadas pela inteligência artificial (IA). O cenário dominou os debates da edição de 2026 da GlobalFact, conferência anual da International Fact-Checking Network (IFCN), que reuniu centenas de especialistas em Vilnius, na Lituânia.
Ao longo dos três dias do encontro, representantes de cerca de 180 organizações de verificação de factos de mais de 55 países discutiram estratégias para garantir a sustentabilidade do sector, combater campanhas de desinformação cada vez mais sofisticadas e responder ao impacto crescente dos modelos de IA generativa.
Na sessão de abertura, o ministro da Defesa Nacional da Lituânia, Robertas Kaunas, sublinhou o papel estratégico da informação no actual contexto geopolítico. "Os meios de comunicação social são uma infraestrutura democrática tão importante como um sistema de defesa aérea ou a artilharia", afirmou, numa referência às campanhas de manipulação de informação atribuídas à Rússia e que afectam particularmente os países bálticos.
A conferência decorreu num contexto de forte redução do financiamento destinado às organizações de fact-checking.
Em 2024, a administração norte-americana encerrou a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que financiava projectos de verificação de factos em diversos países. Paralelamente, a Meta terminou o seu programa de verificação independente de factos nos Estados Unidos e já manifestou a intenção de substituir gradualmente o modelo internacional pelas chamadas "Notas da Comunidade", à semelhança do que acontece na plataforma X.
A mudança reflectiu-se também na própria conferência, onde apenas o TikTok marcou presença de forma significativa entre as grandes plataformas tecnológicas.
"A verificação de factos não é censura. Não é partidária. Nunca o foi", afirmou Angie Drobnic Holan, directora da IFCN, apelando às empresas tecnológicas para voltarem a colaborar com o sector.
Diversificar receitas torna-se prioridade
Perante o recuo dos financiadores tradicionais, a sustentabilidade financeira foi um dos principais temas da GlobalFact. Segundo o relatório State of Fact-Checkers 2025, apresentado durante a conferência, 62% das organizações inquiridas registaram crescimento das audiências, mas apenas 22% consideram a sua situação financeira sustentável.
Peter Erdelyi, director do Center for Sustainable Media, defendeu que o modelo baseado quase exclusivamente em subvenções se tornou insuficiente.
Entre as alternativas sugeridas estão newsletters pagas, conteúdos premium destinados a públicos profissionais e serviços especializados para empresas, como formação em desinformação ou verificação de informação em áreas como saúde ou farmacêutica.
Várias organizações apresentaram já exemplos concretos dessa estratégia. O argentino Chequeado desenvolveu o "Desgrabador", uma ferramenta de transcrição baseada em inteligência artificial destinada a jornalistas, estudantes e investigadores, esperando que o produto represente cerca de 10% do orçamento anual.
Já a organização queniana Africa Uncensored combina financiamento filantrópico com receitas provenientes de produção audiovisual e licenciamento de conteúdos, mantendo gratuito o seu serviço de verificação de factos.
A inteligência artificial foi outro dos temas centrais da conferência. Alguns especialistas alertaram para o fenómeno conhecido como "envenenamento de modelos de linguagem" (LLM poisoning), através do qual são publicados grandes volumes de conteúdos falsos na Internet com o objectivo de influenciar as respostas fornecidas por sistemas de IA generativa.
Segundo o investigador finlandês Pekka Kallioniemi, campanhas russas já recorreram a esta estratégia através da denominada "rede Pravda", composta por mais de 180 websites. "O ChatGPT e o Claude são o próximo campo de batalha. É aí que assistimos à batalha das narrativas", afirmou.
Os especialistas alertaram que estas tentativas de manipulação podem ocorrer tanto durante o treino dos modelos como através das pesquisas em tempo real utilizadas pelos assistentes de IA.
Ferramenta compara enviesamentos entre modelos de IA
Durante a conferência foi também apresentada uma versão experimental do AIdas, uma plataforma desenvolvida para comparar respostas produzidas pelos principais modelos de linguagem, incluindo ChatGPT, Claude, Grok e DeepSeek.
A ferramenta permite avaliar critérios como diversidade de fontes, neutralidade e enviesamento político, ajudando investigadores e verificadores de factos a monitorizar diferenças entre sistemas de inteligência artificial.
Alguns estudos preliminares realizados pela organização iraniana Factnameh indicam, por exemplo, que diferentes modelos respondem de forma distinta perante questões politicamente sensíveis.
A importância da cooperação internacional
A crescente sofisticação das campanhas de desinformação reforçou igualmente o apelo à cooperação internacional. Representantes de organizações da Estónia, Polónia, Hungria, Lituânia e outros países defenderam que as operações de influência ultrapassam fronteiras e exigem respostas igualmente coordenadas.
"Estes malfeitores estão a cooperar. Nós também devemos cooperar", resumiu Szabolcs Panyi, editor de investigação da VSquare, na Hungria.
A colaboração internacional estende-se também ao combate aos deepfakes. Um dos projectos destacados foi a Deepfake Analysis Unit (DAU), iniciativa criada na Índia que disponibiliza gratuitamente análises técnicas a organizações certificadas pela IFCN em todo o mundo.
Actualmente, redacções de países como Filipinas, Indonésia, Japão ou Geórgia recorrem já ao serviço para validar conteúdos audiovisuais suspeitos de terem sido gerados por inteligência artificial.
Os participantes concluíram que, perante a evolução tecnológica e o enfraquecimento do financiamento tradicional, o futuro da verificação de factos dependerá simultaneamente da inovação, da diversificação das fontes de receita e do reforço da cooperação internacional.
(Créditos da imagem: Nieman Lab)