A ascensão das redes sociais, dos podcasts e dos influenciadores digitais, aliada ao controlo cada vez maior da comunicação por parte de governos, empresas e figuras públicas, está a alterar a forma como os jornalistas conseguem chegar às suas fontes e escrutinar o poder. 

A reflexão é feita pela Columbia Journalism Review (CJR), que reuniu jornalistas, escritores, apresentadores e criadores de conteúdos para discutir o significado do acesso à informação num contexto mediático em constante mudança. 

Um dos exemplos mais paradigmáticos surge da Argentina. Luciana Geuna, jornalista do canal Todo Noticias (TN), denuncia o endurecimento da relação entre o Governo de Javier Milei e a imprensa. Depois de um episódio em que dois jornalistas utilizaram óculos inteligentes durante uma reportagem na Casa Rosada, as respectivas credenciais de imprensa foram suspensas e, embora a situação tenha sido parcialmente revertida, um dos profissionais continua impedido de entrar no palácio presidencial. 

Segundo Geuna, o acesso ao edifício tornou-se praticamente inviável devido às restrições impostas às deslocações dos jornalistas, levando muitos profissionais a deixar de acompanhar a actividade no local. A jornalista acusa ainda o Governo de promover ataques personalizados contra repórteres e de recorrer à inteligência artificial para fabricar conteúdos destinados a desacreditar profissionais da comunicação social. 

No entretenimento, a mudança de paradigma também é evidente. Matthew Belloni, antigo editor do Hollywood Reporter e autor da newsletter What I'm Hearing, considera que as celebridades deixaram de depender dos meios de comunicação tradicionais para promover os seus projectos. 

Segundo o jornalista, actualmente os artistas podem comunicar directamente com milhões de seguidores através das suas próprias plataformas ou recorrer a podcasts de grande audiência, onde enfrentam um ambiente mais descontraído e menos propenso a perguntas incómodas. Esta realidade, defende, reduziu significativamente o valor do chamado "jornalismo de acesso", que durante décadas permitiu aos repórteres acompanhar figuras públicas durante vários dias e produzir perfis aprofundados. 

Também Taffy Brodesser-Akner, jornalista da revista do New York Times, reconhece que este género jornalístico está a mudar, mas rejeita a ideia de que esteja em declínio. Para a autora, continua a ser possível produzir grandes perfis, desde que exista tempo suficiente para acompanhar os entrevistados e conquistar a sua confiança. "Perdemos alguma coisa quando já não existe alguém disposto a questionar a versão dos factos apresentada pelas celebridades", afirma, referindo-se ao crescimento dos podcasts centrados em conversas amigáveis. 

A crescente presença de influenciadores e criadores de conteúdos em espaços tradicionalmente reservados aos jornalistas divide opiniões. Kimberly Adams, apresentadora do Marketplace Morning Report, considera positiva a entrada de novas vozes no debate público, mas defende que qualquer pessoa que desempenhe uma função informativa deve respeitar princípios básicos do jornalismo, como a verificação de factos, a transparência e a correcção de erros. 

Na mesma linha, Jazmine Hughes, colaboradora da revista New York, sublinha que a principal diferença entre jornalistas e influenciadores continua a ser o método. "A diferença entre um influenciador e um jornalista é a pesquisa", afirma, defendendo que o papel da imprensa passa por responsabilizar o poder e não por funcionar como uma extensão das equipas de comunicação ou das comunidades de fãs. 

Dan Diamond, repórter da Casa Branca do Washington Post, observa que as administrações norte-americanas têm vindo a abrir espaço para novos meios de comunicação e criadores digitais nas conferências de imprensa. Embora considere positiva a diversificação das vozes presentes, alerta para o facto de algumas dessas escolhas favorecerem interlocutores menos críticos, reduzindo o nível de escrutínio sobre os responsáveis políticos. 

O debate estende-se também à relação entre proximidade e independência. Chris Whipple, autor de vários livros sobre a política norte-americana, sustenta que o acesso continua a ser "o oxigénio do jornalismo" e acredita que a imparcialidade é a principal moeda para conquistar fontes de elevado nível. Já Jemele Hill, jornalista desportiva e colaboradora da The Atlantic, recorda que optou por abandonar a cobertura de uma universidade após seis anos por recear que a proximidade com treinadores, dirigentes e atletas comprometesse a distância crítica necessária ao exercício da profissão. 

Para Michael Wolff, autor e comentador político, não existe o conceito de "proximidade excessiva" com as fontes, defendendo que conhecer profundamente as pessoas sobre quem escreve é uma condição essencial para produzir bom jornalismo. Uma posição que contrasta com a de outros profissionais, para quem a independência editorial depende precisamente da capacidade de manter uma distância em relação aos protagonistas das notícias. 

Apesar das divergências sobre a melhor forma de obter acesso às fontes, os vários intervenientes convergem numa ideia: num contexto em que políticos, empresas e celebridades conseguem comunicar directamente com o público, o valor do jornalismo reside cada vez mais na investigação, na verificação da informação, na contextualização dos factos e na capacidade de colocar perguntas difíceis em nome do interesse público. 

(Créditos da imagem: Unsplash)