Em ruptura profunda, “o jornalismo perdeu o monopólio da produção de notícias”
Para Carlos Castilho, num artigo publicado no Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), os jornalistas — profissionais e não profissionais — foram, ao longo dos últimos anos, "empurrados para uma inglória luta pela sobrevivência material", pressionados pela falta de tempo, de informação e de dinheiro. Essa pressão levou o sector a abraçar a internet e a computação apenas como ferramentas de trabalho, sem perceber que ambas representavam, na realidade, "uma ruptura profunda na forma como o jornalismo foi exercido desde Gutenberg".
O artigo de opinião argumenta que essa ruptura está a corroer as próprias referências teóricas do jornalismo tradicional, construídas a partir de conceitos liberais-democráticos. Valores como isenção, imparcialidade, objectividade, direitos autorais, sigilo de fonte e liberdade de expressão estão hoje a ser questionados no quotidiano da profissão, por força de "novas forças sociais surgidas com a quebra dos paradigmas sociais analógicos".
O protagonismo das "big techs"
Para Castilho, os verdadeiros protagonistas da agenda noticiosa actual já não são os órgãos de comunicação social, mas sim as grandes empresas tecnológicas, cuja influência política e financeira nasce de terem "corrompido o conceito de redes sociais para criar plataformas digitais", estando agora também empenhadas na monetização da inteligência artificial. Nesta disputa, o jornalismo e a imprensa acabaram relegados à condição de "actores secundários na complexa batalha das plataformas para controlar corações e mentes de sete mil milhões de seres humanos".
O texto nota ainda que os empresários que enriqueceram através do jornalismo, ao construírem conglomerados mediáticos, já perceberam que o negócio deixou de ser rentável — e estão, por isso, a extrair o máximo de valor possível dos seus activos (imóveis, máquinas, visibilidade pública) para investir noutros sectores económicos. Ainda assim, o autor reconhece que os grandes grupos mediáticos continuam a ser peças importantes na construção da agenda pública que condiciona a luta pelo poder político.
Esta disputa pela atenção do público colocou imprensa e plataformas em rota de colisão, com as empresas jornalísticas a acusar as plataformas de acesso ilegal a conteúdos publicados e arquivados nas suas bases de dados. Esta é uma batalha jurídica cujo desfecho, segundo o autor, "pode pesar a favor das plataformas, devido ao factor financeiro". Neste contexto, os jornalistas ficam divididos entre trabalhar para gigantes tecnológicos como a Alphabet, a Meta ou a OpenAI, ou assumir os riscos de uma carreira a solo na produção de notícias.
Uma ameaça, mas também uma oportunidade
Para Carlos Castilho, trabalhar directamente para as plataformas digitais implica colocar os princípios básicos do jornalismo "num segundo plano", aderindo a uma lógica comercial voltada para a fidelização da audiência e a máxima monetização possível dos acessos dos utilizadores. Esta reconfiguração do ecossistema informativo criou, nas suas palavras, "uma ameaça estrutural e uma oportunidade conjuntural única na história da profissão".
A ameaça, explica, vem de plataformas como o Facebook, o TikTok ou o Instagram, e das big techs de IA, que não consideram o jornalismo um componente essencial do seu negócio. Já a oportunidade ganha forma à medida que a sociedade percebe a importância central que a informação assumiu no seu próprio desenvolvimento material e intelectual — uma importância que, segundo o autor, depende directamente da "capacidade de desenvolver novos conhecimentos", algo impossível sem acesso à informação.
O autor sublinha que a IA "complicou extraordinariamente" a relação do jornalismo com a informação, ao aumentar a exigência de qualificação exigida a repórteres, editores e comentaristas. Segundo escreve, "o jornalismo perdeu o monopólio da produção de notícias e já não é mais essencial na sua disseminação", uma tarefa hoje feita por plataformas digitais e redes sociais, com a profissão a enfrentar ainda a concorrência directa de programas de IA como o ChatGPT, o Copilot, o Gemini e o Claude na interpretação de dados, factos e eventos.
A necessidade de repensar a relação com o público
Para enfrentar esta nova realidade, o autor defende que o jornalismo precisa de repensar a sua relação com os factos e, sobretudo, com as pessoas. As rotinas, normas e valores que ainda hoje fazem parte da cultura profissional estão "a tornar-se obsoletos" perante o acumular de inovações tecnológicas. Ainda assim, a partir de experiências já em curso no jornalismo local, o autor antevê uma mudança relevante na relação com o público, que começa a exigir uma verdadeira parceria com os jornalistas para compreender como os factos do quotidiano afectam as suas vidas.
É nessa mudança de prioridades que o autor vê a chave para a sobrevivência da profissão. Uma actividade que, para se manter "socialmente relevante e insubstituível na produção de conhecimentos", terá de passar por transformações profundas nas suas rotinas, regras e valores.
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