Quando o podcast Signal Hill foi lançado, o seu formato destacou-se de imediato por fugir às regras habituais do género. Em vez de temporadas, lança "edições"; os episódios (que variam entre menos de dois minutos e mais de uma hora) dividem-se por categorias como "despacho", "reportagem" ou "perfil". Na prática, o resultado é uma revista impressa transposta para um feed de podcast, com notas dos editores e cartas aos editores incluídas.  

Entre as histórias já publicadas contam-se uma reportagem ao estilo "Talk of the Town", com crianças de Madrid, no Novo México, a conversar com pessoas de toda a cidade; um perfil sobre alaúdes, assinado pela escritora e vice-campeã do Great British Bake-Off, Ruby Tandoh; e um ensaio que cruza a ocupação de Alcatraz pelos nativos americanos com a alunagem da Apollo 11, acontecimentos que ocorreram na mesma época. 

Um ano depois do lançamento, com a terceira edição já publicada e uma incursão inicial na rádio, o jornalista Neel Dhanesha do Nieman Lab conversou com os cofundadores e editores-chefes do projecto, Jackson Roach e Liza Yeager, sobre como o Signal Hill se tornou uma excepção num momento de forte contração do áudio documental. 

Inspiração nas revistas literárias 

A origem do projecto está directamente ligada ao modelo das revistas literárias enquanto instituições. Segundo Roach, a equipa inspirou-se nesse universo "porque são espaços onde muitas pessoas diferentes podem criar vários tipos de trabalhos que se complementam e têm uma estrutura institucional que as apoia e mantém durante todo o processo", algo que, no mundo do áudio, existe, mas de forma muito mais frágil do que na imprensa. 

Yeager recorda que ela e Roach, então produtoras freelancer, sentiam essa lacuna na pele: tinham histórias que não se encaixavam bem numa série completa, nem faziam sentido comprimidas no formato de um programa já existente. Roach acrescenta que a alternativa mais comum, lançar o trabalho gratuitamente, por conta própria, também não é sustentável: "se observar todas as coisas mais estranhas e incríveis, provavelmente alguém fez uma parte delas de graça porque não havia uma instituição para as apoiar, e este não é um bom modelo para as pessoas entrarem numa indústria." Yeager acrescenta a dimensão emocional do problema: "é difícil, a nível emocional, convencer-se a produzir um trabalho sem qualquer tipo de apoio institucional, um editor ou alguém que lhe cobre responsabilidades." 

Para perceber melhor este modelo, os fundadores conversaram directamente com a equipa da N+1, uma revista literária que começou com um orçamento reduzido e hoje tem equipa própria, seguro de saúde e escritório físico, além de uma comunidade de escritores. 

Fugir às regras do podcast "lucrativo" 

Ao lançarem o Signal Hill, Roach e Yeager sabiam que estavam a romper com as convenções habituais de uma série pensada para ser rentável — lançar com frequência, alcançar um público de massas para vender publicidade, manter sempre as mesmas vozes reconhecíveis. Segundo Yeager, a decisão foi consciente: "não vamos fazer nada disto. Então, o que vamos fazer?" A resposta passou por priorizar a acessibilidade das histórias, evitando o elitismo da "arte sonora" pura, mas sem abdicar de desafiar os colaboradores a nível sonoro, político e intelectual.  

Como resume Yeager, "o nosso objectivo não é chegar a todos os ouvintes possíveis na América. O nosso objectivo é alcançar um público específico de pessoas que se entusiasmem por ouvir trabalhos diferentes do que já ouviram antes" — e foi essa lógica que tornou o modelo de revista literária particularmente adequado ao projecto. 

Um modelo sem fins lucrativos, inspirado na literatura 

O Signal Hill constituiu-se como organização sem fins lucrativos, um modelo que Roach descreve como "testado e comprovado nos mundos da arte e da literatura", apesar dos seus próprios desafios e limitações. Yeager é directa quanto à realidade económica do género: "não é rentável produzir podcasts documentais." Segundo explica, o grande investimento empresarial em programas documentais acabou por se desmoronar, precisamente porque produzir bom trabalho exige tempo e dinheiro que não geram lucros elevados. As revistas literárias, pelo contrário, sobrevivem porque os leitores pagam por considerarem a forma de arte importante. 

Ao conversar com colegas de revistas literárias, a equipa percebeu que o financiamento típico assenta em duas bases: metade composta por pequenos doadores regulares (o equivalente a uma assinatura anual de cerca de 75 dólares), e a outra metade por doadores maiores, idealmente recorrentes, na ordem dos 10 mil dólares por ano — evitando depender de subsídios, que exigem muito tempo e vêm com condições associadas. 

120 mil dólares em donativos 

Depois de constituírem a organização sem fins lucrativos pouco antes do lançamento da primeira edição, Roach e Yeager começaram a construir uma base de membros, angariando alguns milhares de dólares por mês — um valor que, segundo Yeager, "pareceu muito", vindo sobretudo de pequenas contribuições mensais de 6 ou 12 dólares. Uma ouvinte que geria a sua própria organização sem fins lucrativos ajudou a equipa a organizar a primeira campanha de angariação de fundos de final de ano, que incluiu uma grande doação anónima e outra de um ouvinte particularmente tocado por uma história específica. 

No total, a organização angariou 120 mil dólares em donativos no ano passado — cerca de 25 mil dólares por ano, sem contar com a base de subscritores. Esse valor permitiu à equipa começar a pagar-se uma pequena remuneração mensal pelo trabalho, tornando o projecto "muito mais sustentável", nas palavras de Yeager, apesar de ambos manterem outros empregos. Roach recorda que o capital inicial, que permitiu pagar de imediato aos colaboradores, veio de uma herança da sua avó, ainda que, no primeiro ano, os próprios editores tenham trabalhado essencialmente sem remuneração.  

Actualmente, além dos dois fundadores, mais três editores (Omar Etman, Annie Rosenthal e Lio Wong) recebem uma remuneração editorial mensal, assim como um web designer, pago trimestralmente. 

Apesar da necessidade de financiamento, o Signal Hill optou conscientemente por não colocar o seu áudio atrás de um paywall. Segundo Roach, essa escolha está directamente ligada à estrutura sem fins lucrativos da organização: "queremos ser acessíveis ao maior número de pessoas possível. Queremos que muitas pessoas o ouçam para que considerem tornar-se membros, mas também simplesmente porque queremos que muitas pessoas o ouçam." A equipa já ponderou oferecer conteúdo exclusivo para subscritores, à semelhança do This American Life, mas cada história do Signal Hill demora, em média, oito meses a ser produzida, o que torna inviável um modelo de bónus regulares. Por agora, a resposta possível é um boletim informativo pago, onde a equipa escreve sobre outras formas de arte que inspiram o projecto. 

Da descoberta boca-a-boca à rádio 

Ao contrário de uma revista impressa, que pode ser descoberta numa prateleira de livraria, o áudio depende de outras formas de divulgação. Yeager recorda que, no lançamento, a equipa fez uma ronda de apresentações junto de pessoas do mundo das revistas e da rádio, além de se colocarem em feeds de outros podcasts e organizarem festas de lançamento de cada edição, à semelhança do que acontece no mundo editorial. 

Mais recentemente, o Signal Hill começou também a chegar à rádio tradicional: está actualmente na Lumpen Radio, uma estação de baixa potência em Chicago, cidade onde ambos os fundadores vivem, e a colaborar com a Marfa Public Radio, que tem um alcance mais alargado. Segundo Roach: "qualquer pessoa podia simplesmente ligar o rádio e ouvir-nos. Não precisa de ter ouvido falar do Signal Hill por alguém que ouviu falar por alguém que ouviu falar por alguém para o encontrar na rádio por acaso." 

Um espaço que está a reabrir-se 

Questionada sobre se o espaço para trabalhos independentes e obcecados pela técnica áudio está a expandir-se de novo, Yeager oferece a sua própria leitura do momento: quando o Signal Hill nasceu, o sector atravessava um ponto particularmente baixo, com muitos profissionais a perder empregos institucionais em estações de rádio. Para Yeager, o ciclo vicioso da produção pensada primeiro para gerar dinheiro só se quebra quando esse objectivo financeiro deixa de ser a prioridade. 

Roach recorda a incerteza que antecedeu o lançamento da primeira edição, com noites em claro a afinar os últimos detalhes. Quando o resultado finalmente saiu, superou as suas próprias expectativas críticas: "foi a primeira vez que me senti assim verdadeiramente", diz, admitindo já ter chamado ao projecto "o trabalho da minha vida". Mais do que isso, sente-se privilegiado pela comunidade criativa e pelo cuidado genuíno que o projecto gerou, num momento histórico que, segundo diz, tornou tudo isto possível. 

(Créditos da imagem: Signal Hill)