Perante a sobrecarga de informação e o crescente afastamento de parte do público das notícias, a newsletter francesa Brief.me procura recuperar uma relação mais simples com a actualidade. O projecto aposta em conteúdos claros, concisos e explicativos, enviados uma vez por dia, ao final da tarde, e assenta num modelo de negócio baseado exclusivamente em subscrições. 

Criada há dez anos, a Brief.me nasceu com o intuito de ajudar os leitores a compreender os principais acontecimentos do dia sem os obrigar a acompanhar um fluxo permanente de informação. A newsletter principal é enviada de segunda a sexta-feira, às 18h30, e promete permitir aos subscritores conhecer e compreender a actualidade em cerca de sete minutos. 

“A ideia é ajudar os nossos leitores a compreender o mundo num curto espaço de tempo. Por isso, escrevemos de forma clara, concisa e explicativa”, explica Laurent Mauriac, cofundador e presidente da Brief Media, em entrevista ao The Fix

O projecto procura posicionar-se como uma alternativa à lógica de actualização permanente e à crescente polarização do panorama mediático. Em vez de multiplicar alertas e notícias ao longo do dia, a Brief.me selecciona e hierarquiza os acontecimentos, oferecendo aos leitores uma síntese acompanhada de contexto. 

“Neste clima cada vez mais polarizado e que gera ansiedade, queremos mostrar às pessoas que podem estar tentadas a deixar de se informar que existe outra forma de se informarem”, afirma Mauriac. Essa abordagem, acrescenta, procura evitar “a dramatização, o excesso ou a polarização”, assegurando, ao mesmo tempo, a ligação dos leitores à actualidade. 

O horário de publicação é uma das características que distinguem o projecto. Enquanto muitas newsletters de informação são distribuídas durante a manhã, a Brief.me optou pelas 18h30. 

A escolha resulta, segundo Mauriac, da intenção de chegar a pessoas que têm menos disponibilidade no início do dia. O período entre a saída do trabalho e o regresso a casa, sobretudo para quem utiliza transportes públicos, é considerado particularmente adequado para este formato. 

A Brief.me deixou, entretanto, de ser apenas uma newsletter. A Brief Media conta actualmente com cerca de 20 pessoas e desenvolveu outras publicações, uma aplicação móvel, um site e uma versão áudio. 

newsletter principal é complementada pela BriefEco, publicada à quarta-feira e dedicada à economia numa perspectiva educativa, e por uma newsletter sobre ciência, enviada à sexta-feira. Existem ainda edições temáticas que reúnem e explicam os principais acontecimentos relacionados com determinados assuntos. 

Actualmente, a Brief.me conta com 12 mil subscritores individuais. Através de acordos com organizações, sobretudo no sector da educação, o conteúdo chega também a muitas escolas secundárias. A empresa estima que o seu público total seja de pelo menos 40 mil subscritores. 

A ausência de publicidade 

Um dos elementos centrais do modelo da Brief Media é a ausência de publicidade. A empresa optou por depender exclusivamente das assinaturas, numa tentativa de proteger o tipo de jornalismo que pretende oferecer. “Não temos publicidade, porque o que procuramos desenvolver é uma abordagem mais ponderada das notícias”, explica Mauriac. 

O cofundador considera que o modelo publicitário pode incentivar uma cobertura mais orientada para histórias sensacionalistas e para conteúdos capazes de captar rapidamente a atenção. 

A estratégia levou à criação de um negócio sustentável. Segundo Mauriac, a empresa é rentável há seis anos e tem registado um crescimento de aproximadamente 20% ao ano. 

Um “antídoto” para a fadiga noticiosa 

Embora a fadiga noticiosa tenha ganho maior atenção nos últimos anos, a Brief.me afirma ter sido criada precisamente para responder a alguns dos problemas que hoje são associados a esse fenómeno. 

“Hoje, falamos muito de fadiga noticiosa, até de êxodo de informação, mas desde o início do Brief.me, já tínhamos criado uma espécie de antídoto para isso”, afirma Mauriac. 

A proposta não passa apenas por reduzir a quantidade de informação. A publicação procura também tornar a actualidade mais fácil de compreender. 

Um dos obstáculos identificados pela Brief.me é a utilização de linguagem especializada que pode afastar leitores menos familiarizados com determinados temas. Por isso, a newsletter procura explicar os conceitos e instituições referidos nas notícias. 

“Há também a questão do acesso à informação, o que significa que as pessoas muitas vezes a percebem como jargão e não compreendem completamente o que estamos a dizer”, explica. 

A solução passa por uma abordagem mais educativa. Termos relacionados com instituições como o Fundo Monetário Internacional ou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico são explicados quando surgem nos conteúdos. 

A imparcialidade é outro elemento desta estratégia. Num ambiente com uma oferta informativa abundante, os leitores podem sentir que parte dos conteúdos está demasiado associada a opiniões ou posições políticas. 

“Dentro desta sobrecarga de informação, também existe informação que é frequentemente percebida como tendenciosa ou fortemente influenciada por opiniões. Penso que a nossa abordagem factual também ajuda a combater isso”, afirma Mauriac. 

Conquistar os jovens sem lhes “roubar” tempo 

A publicação procura também combater o afastamento dos jovens das notícias. Mauriac afirma que a Brief.me tem conseguido atrair muitos jovens, particularmente mulheres, um perfil que considera pouco habitual quando comparado com o público de muitos meios de comunicação tradicionais. 

Uma das explicações poderá estar precisamente na promessa de rapidez. A Brief.me não procura competir pelo maior número de horas de atenção, mas oferecer uma forma rápida de acompanhar a actualidade. 

A proposta poderá ser particularmente relevante para pessoas com rotinas profissionais e familiares exigentes. “Penso que este serviço vai ao encontro de uma necessidade que pode ser mais acentuada entre as mulheres jovens e activas que, por exemplo, têm emprego e filhos. Por isso, não têm muito tempo livre”, afirma. 

Para o futuro, a Brief Media pretende reforçar ainda mais a dimensão explicativa do projecto. A empresa está a implementar uma reformulação gráfica que deverá dar maior destaque aos infográficos. 

O objectivo é ultrapassar a função tradicional de resumir os acontecimentos e permitir que os leitores compreendam melhor os temas abordados. “O que estamos a tentar fazer é fortalecer o aspecto cultural das notícias. Ou seja, não apenas relatar e explicar o que aconteceu, mas realmente permitir que as pessoas compreendam completamente as notícias”, explica Mauriac.

(Créditos da imagem: Brief.me)