Quem acompanha notícias sobre alimentação sabe que um mesmo alimento pode passar de vilão a herói, e vice-versa, em poucos anos. Nos Cuadernos de Periodistas (parceiros do CPI), um artigo de opinião do professor Josu Mezo, especialista em comunicação, entende que o problema não está apenas na ciência, mas na forma como esta é traduzida para manchetes. 

Mezo recorda o caso do harmol, uma substância presente no café que, segundo alguns meios de comunicação espanhóis, prolongaria a vida. As imagens usadas mostravam pessoas a beber café, mas a experiência tinha sido feita em células, moscas, vermes e ratos, com doses muito superiores, em proporção ao peso, às que uma chávena de café poderia fornecer. 

Outro ponto sensível são os conflitos de interesses. Estudos financiados por indústrias alimentares não são necessariamente falsos ou enviesados, mas merecem uma leitura mais atenta e essa ligação deveria ser sempre mencionada quando a notícia é divulgada. O autor cita um exemplo recente: um estudo de revisão sobre os benefícios do consumo moderado de café, divulgado no final de 2025, foi parcialmente financiado por uma organização ligada ao sector. Nem todas as notícias referiram esse detalhe. 

Mezo defende que os artigos de revisão costumam ter conclusões mais sólidas do que investigações isoladas. No entanto, é raro a imprensa distinguir os dois tipos perante o público. O autor compara manchetes sobre estudos originais com uma notícia baseada numa "revisão de revisões": todas são apresentadas com o mesmo grau de certeza, apagando uma diferença metodológica importante. 

Essa confusão torna-se mais problemática quando um único estudo contraria um consenso científico já estabelecido. Foi o que aconteceu em Fevereiro deste ano, quando vários meios noticiaram que um estudo da Universidade de Navarra "demonstrava" benefícios do consumo moderado de vinho associado à dieta mediterrânica, chegando a inflaccionar a redução de mortalidade indicada (cerca de 10%) para 33% em algumas notícias. Poucos meios lembraram que esta conclusão contradiz a posição da Organização Mundial da Saúde, segundo a qual não existe nível seguro de consumo de álcool. 

O argumento central do artigo, porém, é o de que a maior parte dos estudos de nutrição não pode, pela sua própria natureza, provar relações de causa e efeito. Os ensaios aleatórios — em que os participantes são divididos ao acaso em grupos submetidos a tratamentos diferentes — são difíceis de aplicar a dietas ao longo de décadas, por razões práticas, económicas e éticas. 

Por isso, grande parte do conhecimento sobre alimentação e longevidade vem de estudos observacionais: milhares de voluntários acompanhados ao longo de anos, que preenchem periodicamente questionários sobre o que comem. Sem aleatorização, sem controlo total sobre outros factores de vida (tabaco, exercício, sono, stress) e com dados sujeitos a erros de memória, estes estudos só permitem falar de associações, nunca de certezas causais. 

É por isso, conclui Mezo, que os próprios investigadores evitam afirmar que um alimento "mata" ou que outro "prolonga a vida". Quando o jornalismo o faz, corrói a confiança tanto na ciência como no próprio jornalismo. 

(Créditos da imagem: Pexels)