Absolvição de magnata maltês no caso Daphne Galizia gera indignação
Quase nove anos depois do assassinato da jornalista Daphne Caruana Galizia, um dos homens mais ricos de Malta foi absolvido de qualquer envolvimento no crime. Yorgen Fenech, empresário de 44 anos ligado à hotelaria e ao sector energético maltês, foi ilibado das duas acusações que enfrentava: cumplicidade no homicídio doloso da jornalista e associação criminosa com intenção de cometer um crime.
O júri decidiu pela absolvição em ambas as acusações por maioria de oito votos contra um. Perante a decisão, a juíza ordenou a libertação imediata de Fenech, que arriscava pena de prisão perpétua caso fosse condenado.
Corinne Vella, irmã da jornalista, considerou que a absolvição envia uma mensagem de que é possível matar jornalistas sem consequências. O filho mais velho de Caruana Galizia classificou a decisão dos jurados como um erro grave, do qual o país poderá nunca se recuperar, acusando o júri de ter evitado a responsabilidade de fazer justiça.
A pressão política não tardou: o líder da oposição, Alex Borg, pediu que o caso seja debatido no parlamento, num discurso feito perante manifestantes reunidos junto ao parlamento maltês na noite do veredicto. Borg descreveu a decisão como uma mancha no governo e defendeu a liberdade de imprensa sem pressões indevidas.
O assassinato de Caruana Galizia, morta em Outubro de 2017 num atentado com explosivos colocados no seu carro, tornou-se o maior escândalo político da história recente de Malta. A jornalista investigava há vários anos ligações entre Fenech e figuras políticas de topo. O caso acabou por forçar a saída do então primeiro-ministro Joseph Muscat, juntamente com dois ministros e o seu chefe de gabinete. O governo actual limitou-se a tomar nota do veredicto, apelando à prudência nos comentários públicos e reafirmando o compromisso com a justiça institucional.
Segundo a acusação, Fenech terá pago 150 mil euros a um intermediário para contratar o homicídio da jornalista. O julgamento, que se prolongou por dois meses, expôs a extensa rede de contactos políticos do empresário e levantou suspeitas de fugas de informação da investigação policial. Algumas testemunhas e o próprio arguido alegaram que o chefe de gabinete do primeiro-ministro terá partilhado dados confidenciais com Fenech.
O Ministério Público argumentou que Fenech acreditava poder comprar a justiça, pedindo ao júri que avaliasse se os seus contactos políticos lhe davam poder suficiente para encomendar o crime. Já a defesa apontou o dedo a Keith Schembri, antigo chefe de gabinete de Muscat, sugerindo que a cadeia de comando do crime chegava a níveis mais altos e que a polícia não tinha investigado devidamente essas ligações. Schembri negou qualquer envolvimento no homicídio ou nas alegadas fugas de informação.
Em tribunal, Fenech negou ter ordenado a morte de Caruana Galizia, descrevendo-se como um simples intermediário entre Schembri e o taxista Melvin Theuma, uma testemunha-chave da acusação, que, segundo o empresário, o terá chantageado. A defesa argumentou ainda que o júri não considerou credível o testemunho de Theuma, questionando se isso não seria, na prática, um sinal de que os jurados identificaram outros responsáveis pelo crime.
Reacções não tardaram
Organizações da sociedade civil já reagiram. O grupo de activismo Repubblika pediu um "ajuste de contas nacional" que leve a tribunal a corrupção investigada pela própria Caruana Galizia, defendendo que figuras políticas associadas à impunidade da era Muscat não devem regressar à vida pública. A Occupy Justice classificou o veredicto como doloroso e decepcionante, sublinhando que continua por apurar quem ordenou o assassinato.
Um inquérito público independente, concluído em 2021 após pressão da família, já tinha determinado que o Estado maltês deveria assumir responsabilidade pelo crime, por ter criado uma atmosfera de impunidade a partir dos escalões mais altos do poder. A Fundação Daphne apelou a reformas institucionais que impeçam que outros jornalistas enfrentem riscos semelhantes.
Tom Gibson, do Comité para a Protecção dos Jornalistas, esteve presente na leitura do veredicto e descreveu-o como devastador para a família da jornalista, garantindo que a organização continuará a acompanhar os esforços para responsabilizar todos os envolvidos no crime.
(Créditos da imagem: Matthew Mirabelli - imagem retirada do site Article 19)