A transparência como desafio à inteligência artificial aplicada aos media
Um estudo publicado na revista Digital Journalism conclui que o público quer perceber como, onde e em que medida a inteligência artificial foi utilizada numa notícia, bem como qual foi o nível de supervisão humana ao longo do processo editorial.
A investigação, intitulada “Transparency Is More Than a Label”: Public Information Needs About AI Use Disclosure in News, aponta para a necessidade de uma transparência mais detalhada e contextualizada por parte dos órgãos de comunicação social.
Uma redacção pode recorrer a IA para corrigir um texto, traduzir ou resumir documentos, verificar determinada informação, criar uma imagem ou, em casos mais extremos, produzir uma notícia quase integralmente. Para o leitor, no entanto, todas estas situações podem acabar resumidas ao rótulo de “conteúdo gerado por IA”.
Os autores defendem que a transparência deve permitir perceber “para que a utilizámos, em que medida interveio e que controlos humanos foram aplicados”, em vez de se limitar a indicar se a IA esteve ou não envolvida.
O aviso deve estar visível
A investigação teve por base três grupos de foco realizados com 21 cidadãos neerlandeses, entre os 24 e os 63 anos, com diferentes níveis de escolaridade e experiências profissionais. As sessões combinaram discussões sobre o uso de IA nos media com a análise de exemplos concretos de conteúdos produzidos com recurso à tecnologia.
Entre os materiais utilizados estavam notícias identificadas pelo NewsGuard como geradas por IA, incluindo uma relacionada com informações falsas sobre Volodymyr Zelensky e outra sobre voleibol.
Uma das conclusões mais claras foi a necessidade de que a utilização de inteligência artificial seja comunicada de forma explícita e facilmente identificável. Para os participantes, o aviso não deve estar escondido no final do artigo, numa nota secundária ou entre outros elementos gráficos.
O estudo aponta que alguns participantes sugeriram a utilização de ícones, marcas de água, certificações ou selos, enquanto outros defenderam diferenças suficientemente perceptíveis ao nível da cor ou do tamanho. A colocação do aviso no início da notícia foi também uma das possibilidades referidas.
Nem toda a utilização de IA é igual
Para os participantes, também não faz sentido colocar no mesmo plano todas as aplicações da inteligência artificial. A utilização da tecnologia para melhorar a gramática ou apoiar a verificação de informação foi encarada de forma diferente da geração automática de uma notícia.
A criação de imagens através de IA surgiu como outro caso particularmente sensível, devido ao risco de representar pessoas ou acontecimentos que nunca existiram. Nestes casos, os participantes consideraram necessária uma indicação mais clara sobre a intervenção da tecnologia.
A investigação aponta, assim, para a possibilidade de uma “transparência proporcional”, que distinga entre diferentes níveis de intervenção. Um conteúdo integralmente gerado por IA exigiria uma explicação diferente de um artigo escrito por um jornalista que utilizou uma ferramenta para resumir um documento ou corrigir um texto.
Quanto maior o impacto, maior a exigência
O tema da notícia também influencia as expectativas dos leitores. Os participantes demonstraram maior exigência quando a inteligência artificial era utilizada em conteúdos políticos ou relacionados com assuntos de elevado interesse público.
Uma notícia sobre desporto ou estilo de vida poderia, na sua perspectiva, justificar uma explicação menos extensa. Já uma informação relacionada com líderes políticos ou decisões com impacto na sociedade exigiria maior clareza sobre a forma como a tecnologia foi utilizada.
Os investigadores identificam neste comportamento uma possível “hierarquia de importância”: quanto maiores forem as consequências de determinada informação, maior tende a ser a exigência de transparência sobre a intervenção da IA.
A reputação do órgão de comunicação social também desempenha um papel. Os participantes mostraram maior predisposição para confiar em organizações jornalísticas consolidadas, associando-as a normas profissionais e mecanismos de controlo. Ainda assim, a reputação não elimina completamente as dúvidas sobre quem produziu efectivamente o conteúdo.
Transparência pode aumentar o cepticismo
O estudo identifica ainda que mais transparência não significa necessariamente mais confiança. Informar o leitor de que uma notícia foi produzida com recurso a inteligência artificial pode aumentar a percepção de transparência, mas também pode levar a uma avaliação mais negativa do conteúdo. Alguns participantes disseram que passariam a ler a informação com maior cautela depois de saberem que a IA tinha sido utilizada.
Outros associaram imediatamente conteúdos gerados artificialmente a notícias falsas, clickbait ou materiais de baixa qualidade encontrados nas redes sociais.
Os autores relacionam este fenómeno com aquilo que investigações anteriores identificaram como um possível “efeito de transferência negativa”: experiências negativas com inteligência artificial noutros contextos podem influenciar a forma como o público avalia utilizações legítimas da tecnologia no jornalismo.
O risco pode estender-se à própria marca jornalística. Um leitor que descubra uma utilização que considere inadequada da IA numa publicação de confiança poderá questionar não apenas aquela notícia, mas também outros conteúdos produzidos pelo mesmo órgão.
O risco da “cegueira aos banners”
Há ainda uma dificuldade relacionada com a forma como estes avisos são apresentados. Se as indicações sobre IA forem demasiado pequenas e repetidas com frequência, os utilizadores podem deixar de lhes prestar atenção: um fenómeno semelhante à chamada “cegueira aos banners”.
Por outro lado, um aviso demasiado destacado também pode ter efeitos indesejados. Alguns participantes admitiram que uma indicação excessivamente proeminente poderia levá-los simplesmente a abandonar a leitura do artigo.
Para os investigadores, a solução passa por encontrar um equilíbrio entre visibilidade e contexto, evitando tanto a ocultação da informação como uma sinalização que faça da utilização de IA o elemento dominante da experiência de leitura.
A principal conclusão do estudo é que os meios de comunicação devem ultrapassar uma lógica de “IA sim” ou “IA não”.
A transparência deve ser visível e intuitiva, mas também deve explicar qual foi o papel da tecnologia no processo editorial. O leitor deve conseguir perceber se a IA foi utilizada para uma tarefa secundária ou se esteve envolvida na produção de uma parte substancial do conteúdo.
Esta informação pode também contribuir para a literacia mediática, ao ajudar o público a compreender que a utilização de inteligência artificial não significa automaticamente que uma notícia seja menos rigorosa.
Daí que, para os autores, não exista necessariamente um modelo único de transparência aplicável a todos os conteúdos. O formato da notícia, o tema, a função desempenhada pela IA, o risco associado à informação e a relação que o público mantém com o órgão de comunicação devem ser considerados na definição do nível de informação disponibilizado.
O estudo identifica ainda uma possível diferença entre aquilo que os leitores esperam dos meios de comunicação e os requisitos mínimos estabelecidos pela legislação.
Os investigadores analisam, neste contexto, o artigo 50.º do Regulamento Europeu sobre Inteligência Artificial, que prevê uma excepção à obrigação de divulgação de determinados conteúdos textuais gerados ou manipulados por IA quando estes estão sujeitos a revisão humana ou controlo editorial antes da publicação.
Na prática, esta margem pode permitir que os órgãos de comunicação social adoptem políticas próprias de transparência mais exigentes do que o mínimo legal.
Para os investigadores, essa poderá ser uma oportunidade para os media desenvolverem modelos de divulgação que não se limitem a cumprir uma obrigação formal, mas respondam efectivamente às necessidades do público.
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