À medida que a inteligência artificial se torna uma presença cada vez mais comum nas redacções, como devem os meios de comunicação informar o público sobre a utilização destas ferramentas sem comprometer a confiança dos leitores? Dois estudos recentemente publicados na revista Digital Journalism ajudam a clarificar esta questão e oferecem orientações práticas para as organizações noticiosas. 

O primeiro estudo, intitulado The Effects of Generative AI News Policies on Media Credibility and Selectivity: Evidence from a Conjoint Experiment in Chile, analisou como diferentes políticas editoriais relacionadas com a IA afectam a percepção de credibilidade dos meios de comunicação. 

Os investigadores Sebastián Valenzuela, Ingrid Bachmann, Porismita Borah e Natalia Solís Valdés pediram aos participantes que comparassem políticas de utilização de IA em órgãos de comunicação social. As políticas variavam em sete dimensões, incluindo o grau de supervisão humana, a divulgação do uso da IA e os tipos de conteúdo produzidos com auxílio destas ferramentas. 

O resultado foi inequívoco: a supervisão humana revelou-se o factor mais importante para a confiança do público. 

Os participantes consideraram mais credíveis os meios que exigiam revisão humana de todo o conteúdo produzido com recurso à IA. Esses veículos foram também escolhidos com maior frequência como fontes de informação. 

A transparência sobre o uso da IA foi igualmente valorizada. Os leitores mostraram preferência por organizações que divulgam claramente quando e como recorrem à tecnologia. 

Por outro lado, a confiança diminuía quando a IA era utilizada para produzir não apenas notícias factuais, mas também conteúdos que exigem interpretação, contextualização ou juízos mais complexos. Em comparação, os participantes mostraram maior confiança em meios que restringiam ou proibiam a produção automatizada de notícias. 

Ainda assim, nem todas as aplicações da IA suscitaram preocupações. Os participantes não demonstraram objecções significativas à utilização da tecnologia para tarefas rotineiras de apoio à redacção, nem à personalização de formatos noticiosos ou à criação de conteúdos visuais. 

O segundo estudoBeyond the Byline: Audience Expectations for AI Disclosure in Journalistic Media, de Jessica Zier e Nicholas Diakopoulos, procurou compreender de forma mais aprofundada as expectativas do público em relação à rotulagem da IA através de entrevistas qualitativas. 

Os participantes identificaram várias razões para desejarem informação explícita sobre o uso da IA: reforço da responsabilização jornalística, prevenção de fraude, aumento da confiança e sinalização da necessidade de verificação adicional dos factos. 

Uma conclusão do estudo diz respeito à linguagem utilizada nos rótulos. Os entrevistados fizeram uma distinção clara entre conteúdos "gerados por IA" e conteúdos "assistidos por IA". 

Expressões como "gerado por IA" ou "feito por IA" foram interpretadas como significando que a máquina produziu o conteúdo de forma autónoma. Já termos como "assistido por IA" ou "produzido em colaboração com IA" sugeriam a existência de intervenção e supervisão humanas. 

Esta diferença revelou-se importante porque muitos participantes associam a IA ao risco de alucinações, enviesamentos e erros factuais. Consequentemente, consideram essencial saber se houve revisão humana. 

Ao contrário do primeiro estudo, vários entrevistados manifestaram preocupações específicas com conteúdos visuais criados por IA, defendendo que imagens e ilustrações devem ser claramente identificadas. 

Quando a transparência pode reduzir a confiança 

Apesar de defenderem maior transparência, os participantes também reconheceram um paradoxo. A simples presença de um rótulo relacionado com IA pode funcionar como um sinal de alerta para alguns leitores. Um entrevistado afirmou que, ao encontrar esse tipo de indicação, a sua reacção imediata seria procurar outras fontes para confirmar a informação. 

As entrevistas revelaram ainda que muitos leitores continuam a associar o jornalismo a competências profissionais especializadas, formação rigorosa e responsabilidade ética. Neste contexto, o recurso excessivo à IA pode ser interpretado como uma forma de reduzir o valor do trabalho jornalístico. 

Com base nos resultados, os autores apresentam várias recomendações práticas para os meios de comunicação: 

  • Os rótulos devem ser simples e compreensíveis, mas suficientemente precisos para explicar o papel desempenhado pela IA; 
  • Elementos interactivos, como ícones que revelam informação adicional quando o utilizador passa o cursor sobre eles, podem fornecer contexto sem sobrecarregar o texto; 
  • A divulgação do uso da IA deve aparecer no início do conteúdo e não apenas no final, evitando percepções de ocultação ou engano; 
  • O sector deve caminhar para modelos de rotulagem mais uniformes, reduzindo a confusão entre diferentes organizações noticiosas. 

Em conjunto, os dois estudos apontam para uma conclusão consistente: o público não rejeita necessariamente a utilização da inteligência artificial no jornalismo, mas continua a valorizar fortemente a presença humana nos processos editoriais. 

A supervisão de jornalistas surge como um sinal de responsabilidade, prestação de contas e controlo de qualidade. 

As conclusões sugerem também que os editores devem ser especialmente cautelosos ao utilizar IA em tarefas que envolvam interpretação, análise ou juízos de valor. Nesses contextos, a intervenção humana continua a ser vista como indispensável.

(Créditos da imagem: Freepik)