Antes da pausa de Verão, sublinhámos neste espaço o facto de estarmos em vésperas de grandes transformações no modo de exercer o jornalismo e no funcionamento dos media, quer por força da concorrência das grandes plataformas digitais no acesso à Informação, quer ainda pelo advento da Inteligência Artificial, cada vez menos sorrateira na sua presença nas redacções.

E lembrávamos, também, que num contexto de crise no sector, este site do CPI tem procurado analisar e trazer à superfície o que se nos afigura de maior relevância para o futuro dos jornalistas e dos media onde colaboram.

No regresso, é indubitável que a paisagem mediática continua incerta, sem sinais credíveis de mudanças consistentes, já que em relação a algumas movimentações conhecidas se adivinham mais as negociatas de bastidores e a perseguição de interesses duvidosos, do que propriamente a valorização do sector.

Num estudo académico recente, realizado pela Universidade do Minho, concluiu-se, por exemplo, que o abandono da reportagem (não confundir com os chamados “directos” em televisão) tem vindo, gradualmente, a impor-se, instalando o sedentarismo no jornalismo português.

O estudo baseou-se num inquérito a mais de uma centena de jornalistas sobre os seus hábitos de reportagem e as conclusões foram desastrosas.  

Menos de um quarto dos profissionais ouvidos admitiu fazer reportagens com regularidade. E mais de 70 por cento reconheceu privilegiar o contacto telefónico com as fontes.

O estudo, publicado em Março, confirmou, com dados irrefutáveis, aquilo que se pressentia há muito nas redacções: a reportagem tornou-se residual e está a desaparecer das rotinas profissionais, falhando o contacto de proximidade com as fontes ou com a realidade exterior. Ou seja, as redacções estão cada vez mais voltadas para dentro, amiúde dependentes da agenda política e institucional.

O defeito estrutural é este: o jornalismo tornou-se mais dependente de fontes oficiais ou de agências e menos presente no terreno. A lógica industrial da produção noticiosa — rapidez, simplificação — está a corroer a capacidade do jornalismo de cumprir a sua função democrática de escrutínio e ligação às comunidades.

Neste contexto de retraimento editorial, não admira que se agudize a crise do associativismo no sector dos media e do jornalismo, traduzida no enfraquecimento e na fragmentação das organizações que representam tanto os profissionais (jornalistas) como as empresas do sector, agravada por uma profunda crise financeira dos modelos de negócio tradicionais. Não é a primeira vez que o escrevemos e decerto não será a última.

A precariedade laboral não favorece o envolvimento dos profissionais em actividades associativas, nem estas se colocam entre as suas prioridades.

Por isso, o balanço e a reflexão que temos feito no CPI aconselham opções mais ousadas e criativas, para salvaguarda daquilo que mais importa: a independência dos media, do jornalismo e dos jornalistas. O que não é coisa pouca. Voltaremos ao assunto.

A Direcção