Para a Columbia Journalism Review, a crise dos “media” explica-se pelas revoluções tecnológicas
A história da imprensa norte-americana do século XIX demonstra que a evolução dos meios de comunicação nunca dependeu apenas da tecnologia. Infraestruturas, legislação, modelos económicos e participação cívica foram determinantes para moldar um ecossistema mediático que, em muitos aspectos, apresenta semelhanças com os desafios enfrentados actualmente pelo jornalismo na era digital e da inteligência artificial (IA). É esta a tese defendida num artigo publicado no Columbia Journalism Review.
Embora a crise dos media seja frequentemente explicada pela sucessão de revoluções tecnológicas, o período que antecedeu o surgimento dos meios de comunicação de massas oferece uma perspectiva diferente sobre a forma como o sector se transforma.
No final da Guerra da Independência dos Estados Unidos existiam apenas 37 jornais nas antigas colónias. Em 1900, o país contava mais de 20 mil publicações, concentrando mais de metade dos jornais existentes em todo o mundo, apesar de representar apenas cerca de 5% da população mundial.
Este crescimento resultou tanto da inovação tecnológica como das políticas públicas, da expansão económica e das alterações demográficas, criando um sistema descentralizado, diversificado e assente em comunidades locais.
Muitos dos pequenos semanários oitocentistas reuniam notícias locais, opiniões, poesia, sátira, sermões e correspondência, funcionando como espaços de debate comunitário. O artigo sugere que este modelo aproxima-se mais das actuais plataformas digitais do que do jornalismo tradicional.
As primeiras publicações independentes nasceram, aliás, das conversas que circulavam em tabernas e cafés das colónias americanas, formando uma rede distribuída de informação e discussão pública que ajudou a alimentar o movimento independentista.
O papel das políticas públicas
O desenvolvimento da imprensa norte-americana foi igualmente impulsionado por decisões políticas. Depois da independência, a Primeira Emenda da Constituição garantiu a liberdade de imprensa, enquanto a Lei dos Correios de 1792 criou um sistema de distribuição que facilitou a circulação de jornais por todo o território.
Ao mesmo tempo, um regime de direitos de autor pouco restritivo permitia aos jornais copiar, adaptar e republicar notícias de outras publicações praticamente sem limitações legais.
Segundo vários investigadores, entre eles Ethan Zuckerman, da Universidade de Massachusetts Amherst, estas medidas funcionaram como um investimento público na circulação da informação e contribuíram para criar um ecossistema mediático diversificado.
A experiência levanta uma questão actual: que instrumentos poderão hoje desempenhar um papel semelhante na esfera digital?
Nos últimos anos, países como a Austrália e o Canadá aprovaram legislação destinada a obrigar as grandes plataformas tecnológicas a compensar financeiramente as organizações de comunicação social pela utilização dos seus conteúdos. Paralelamente, continuam em discussão outras soluções, como incentivos fiscais, reforço do financiamento aos media públicos e apoio ao jornalismo sem fins lucrativos.
Direitos de autor enfrentam novos desafios
A evolução da inteligência artificial veio reabrir um debate semelhante ao que existia no século XIX em torno da autoria e da reutilização de conteúdos.
Na época, a ausência de um regime robusto de direitos de autor fazia com que a maioria dos jornais reproduzisse notícias de outras publicações, contribuindo para uma rápida disseminação da informação, mas também para uma menor distinção entre conteúdo original e conteúdo reutilizado.
Hoje, sistemas de IA treinam-se sobre enormes volumes de conteúdos jornalísticos publicados, gerando novos textos a partir da recombinação de informação existente, frequentemente sem autorização ou remuneração dos autores. Este contexto coloca questões jurídicas e éticas sobre propriedade intelectual, autoria e responsabilidade editorial.
O surgimento do "editor híbrido"
No artigo é defendido que a crescente integração da inteligência artificial nas redacções poderá dar origem a uma nova figura: o editor híbrido, onde humanos e algoritmos colaboram na selecção, organização e produção de conteúdos.
Tal como os chamados "editores de intercâmbio" do século XIX compilavam notícias provenientes de dezenas de jornais diferentes para construir novas narrativas, os actuais sistemas de IA conseguem combinar informação dispersa em textos aparentemente coerentes.
A diferença reside na escala e na velocidade desse processo, o que exige novos mecanismos de validação, supervisão editorial e enquadramento jurídico.
A principal lição deixada pela história da imprensa oitocentista é que os sistemas mediáticos nunca foram estáticos. A sua evolução depende da interacção entre inovação tecnológica, enquadramento legal, infraestruturas, investimento público e participação das comunidades.
Mais do que procurar recuperar modelos de negócio do passado, o desafio actual passa por criar condições para experimentar novas formas de produzir, distribuir e financiar informação.
Os pequenos jornais locais do século XIX, frequentemente sustentados por redes comunitárias, colaboração entre editores e modelos económicos informais, desempenharam um papel decisivo na circulação de ideias que impulsionaram movimentos como o abolicionismo, a defesa dos direitos das mulheres ou outras reformas sociais.
(Créditos da imagem: Unsplash)