A adaptação do jornalismo à inteligência artificial exigirá novas competências técnicas e éticas
A inteligência artificial (IA) continua a ser encarada pelo sector da comunicação sobretudo como uma ferramenta para acelerar a produção de conteúdos, mas o seu verdadeiro impacto poderá ser muito mais profundo. Esta é a principal ideia defendida pelo jornalista e investigador Carlos Castilho, num artigo de opinião publicado no Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), que considera que a relação entre jornalismo e IA ainda se encontra "num nível primário", uma vez que a tecnologia é utilizada essencialmente para "acelerar, ampliar e diversificar modelos de produção de notícias, herdeiros da era analógica".
Segundo o autor, apesar do crescente interesse pela inteligência artificial nas redacções, o debate continua excessivamente centrado nas questões da eficiência e do emprego. Muitos profissionais receiam que a automatização conduza à substituição de jornalistas e à redução de oportunidades para os mais jovens. Paralelamente, as empresas de comunicação demonstram preocupação com a utilização dos seus arquivos por plataformas de IA sem compensação pelos direitos de autor.
No entanto, Carlos Castilho defende que estas preocupações, embora legítimas, não representam o principal desafio. Para o autor, "o que somente poucos começam a vislumbrar é a mudança estrutural que os processos de inteligência artificial inevitavelmente vão provocar na forma como o jornalismo se insere no conjunto de sistemas de produção de conhecimento na sociedade digital". Na sua perspectiva, esta transformação poderá alterar profundamente "toda a arquitectura dos fluxos de informação".
O artigo explica que, actualmente, as ferramentas de inteligência artificial já ultrapassam a lógica dos motores de busca tradicionais. Enquanto uma pesquisa convencional apresenta ligações para diferentes fontes, sistemas como o Gemini, da Google, fornecem uma síntese interpretada da informação disponível, permitindo reduzir significativamente o tempo necessário para pesquisar e organizar dados. Embora esta capacidade represente um ganho de eficiência, o autor alerta para os riscos associados à crescente dependência destas tecnologias.
Um dos aspectos centrais da reflexão prende-se com a fiabilidade das respostas produzidas pelos sistemas de IA. Castilho recorda que os resultados são gerados por algoritmos desenvolvidos por empresas privadas e, por isso, estão sujeitos a enviesamentos e aos interesses de quem os programou. "Quem fez a pergunta ou consulta precisa confiar plenamente no programa da IA", escreve, acrescentando que essa confiança é "altamente questionável" devido à forte concentração do mercado e às pressões económicas e geopolíticas que envolvem o desenvolvimento destas tecnologias.
O autor destaca ainda a intensa competição entre empresas como a OpenAI, Google, Anthropic e Microsoft, que disputam investimentos, capacidade computacional e acesso a grandes bases de dados. Esta corrida tecnológica, afirma, deixou de ser apenas uma disputa empresarial para assumir uma dimensão geopolítica, envolvendo também a rivalidade entre Estados Unidos e China na liderança do sector da inteligência artificial.
Carlos Castilho considera, assim, que a credibilidade do jornalismo poderá tornar-se ainda mais desafiante. Segundo o investigador, "não dá para verificar as conclusões de um relatório de IA", uma vez que seria impossível verificar individualmente os milhões de documentos utilizados pelos algoritmos para produzir uma resposta. Esta limitação introduz uma "dúvida estrutural" na utilização destas ferramentas em processos jornalísticos.
Na parte final do artigo, o autor defende que a inteligência artificial está a alterar a própria lógica da produção de informação, ao privilegiar as respostas e interpretações em detrimento da análise directa dos factos e das fontes originais. Por isso, considera que valores como a transparência, a verificação e a credibilidade assumirão um papel ainda mais determinante no futuro da profissão.
Para Carlos Castilho, a adaptação do jornalismo à inteligência artificial exigirá novas competências técnicas e éticas, bem como uma reflexão mais profunda sobre o lugar da profissão num ecossistema informativo cada vez mais condicionado pelos algoritmos e pela produção automatizada de conhecimento.
(Créditos da imagem: Unsplash)