O anunciado “emagrecimento” da redacção do jornal Washington Post em cerca de um terço dos 800 jornalistas efectivos foi recebido com surpresa e perplexidade, até pelo facto de o famoso matutino norte-americano ser propriedade de Jeff Bezos desde 2013, o bilionário dono da Amazon e senhor de uma das maiores fortunas a nível planetário.

Quando Bezos anunciou a compra do jornal, o investimento foi encarado como um gesto para dar um novo fôlego ao jornal, contribuindo para a sua robustez e músculo financeiro, fazendo constar também, para responder a quaisquer suspeitas de interferência editorial, que seguiria uma politica de “hands off”, de distanciamento do negócio, limitando-se a escolher os “publishers”.

Um pouco à maneira do que aconteceu por cá, quando Belmiro de Azevedo patrocinou o lançamento de o Público, em Março de 1990, financiando o jornal através do seu grupo empresarial (Sonae), por uma questão de prestigio e, como se disse à época, de aposta num projecto jornalístico de referência, livre e  independente.

Ao contrário de Bezos, que mudou muito de atitude alegadamente para não desagradar à administração Trump, Belmiro faria “ponto de honra” em atravessar vários governos, suportando os défices de exploração, sem pôr em causa a orientação do jornal. E, tanto quanto parece, os seus sucessores não mudaram de opção.

Em contrapartida, o bilionário norte-americano tem vindo a evidenciar menos disponibilidade para aplicar uma ínfima parte da sua fortuna para cobrir os prejuízos do Washington Post, e promover a sua recuperação em termos tecnológicos e de circulação.

É curioso notar que Bezos, que justificou a compra do Washington Post para demonstrar o seu apego aos valores da liberdade jornalística e da democracia, parece agora muito mais inclinado no estreitamento de relações com Trump, que, como se sabe,  não “morre de amores” pelos jornalistas que não alinhem nas suas idiossincrasias ou que não o distingam com louvaminhas submissas.  

A crise da Imprensa é séria e multiplicam-se os casos de colapso de jornais, seja no continente americano seja no velho continente, mas impressiona saber que uma velha glória do jornalismo nos EUA pode estar à mercê de um mero “jogo de interesses”.

Em Portugal também não faltam os “novos ricos” que se apropriaram de jornais – ou mesmo de televisões – para alargar o perímetro das respectivas influências. Infelizmente, o mau exemplo de Bezos tem seguidores.