Os desafios aos media e ao jornalismo
O Relatório da Regulação divulgado pela ERC em meados do ano passado e respeitante ao sector dos media em Portugal, no período compreendido entre 2010 e 2024, é arrasador mesmo para os mais desatentos, relativamente à contracção do mercado de Imprensa em suporte de papel.
Indica o documento que o número de publicações periódicas registadas no País caiu nesse período de 2971 para 1675, uma redução de 40% em 15 anos, sendo esta quebra sobretudo notória no plano local, onde se verificou que 83 municípios terminaram o ano de 2024 sem qualquer publicação periódica registada.
Note-se que esta tendência de “emagrecimento” do mercado continuou em 2025, com nova contracção registada de 1,78%, apenas contrariada, timidamente, por algumas categorias, com ligeiro crescimento, como foi o caso dos operadores televisivos.
Em contrapartida, tem prosseguido a migração para o digital, com aumento significativo, fixando-se a maioria das publicações registadas na entidade reguladora em formato exclusivamente online. Confirmou-se, também, que as versões digitais de alguns títulos da Imprensa escrita, obtiveram acréscimos expressivos que, de algum modo, compensaram a quebra de vendas em banca.
Basta consultar o relatório da APCT – Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens para confirmar isso mesmo. Dois exemplos: o semanário Expresso conseguiu que as subscrições da edição digital superassem largamente, no terceiro trimestre do ano passado, o número de exemplares vendidos em banca, que se fixou nos 33 316.
Em contrapartida, o diárioPúblico tinha na versão digital a principal procura, com assinaturas que superavam cerca de seis vezes a venda física , que se situou em 9 211 jornais.
Este fenómeno de transferência de leitores para o digital não é novo nem é exclusivamente português - longe disso -, embora não abranja outros títulos em sério risco de fecharem.
Estarão os jornais em papel condenados a desaparecerem, tanto pela mudança de hábitos de leitura como pelas contingências da distribuição?
É um cenário possível - ou que deve ser tido em conta no campo das hipóteses - mas improvável.
Recorde-se que não foram poucos os analistas agoirentos que previram o fim do livro, e este resiste com apreciável vitalidade. Do mesmo modo que sobraram os “videntes” do costume, ditando o fim das salas de cinema perante a expansão da televisão a das plataformas de “streaming “. E estas resistiram e resistem, embora com algumas baixas.
O jornal em papel, para sobreviver, não pode, contudo, limitar-se a ser um eco daquilo que as televisões, as rádios ou a Internet difundiram no dia anterior, nem a expressão de interesses políticos ou empresariais de quem controla o seu capital.
Se a instantaneidade da noticia pertence, por natureza, ao audiovisual e à Internet, cabe à Imprensa ser um nicho de mercado, com vocação para o enquadramento dos factos dominantes na actualidade e de comentário especializado e não alinhado, ao contrário do que é corrente com a maioria dos “opinion-makers” que desfilam e se pavoneiam pelas televisões, a preencher tempo de antena. Os desafios são muitos para o verdadeiro jornalismo, desde que este não fique refém de oportunismos espúrios nem de lógicas politicas ou comerciais.