A transição para combustíveis amigos do ambiente, contra a dependência dos combustíveis fósseis, está a ser acelerada pela presente crise. Infelizmente, é tarde para promover o caminho de ferro, que em Portugal tem perdido importância perante as autoestradas.

Desde que se iniciou a subida do preço da gasolina e do gasóleo que os meios de comunicação – jornais, televisões, rádios, etc. – multiplicam notícias sobre quanto vai amanhã custar abastecer o carro; às vezes, até há pequenas notícias de descidas do preço. É natural esta informação, porque milhões de portugueses seguem agora a evolução dos preços dos combustíveis.

A maior parte dos portugueses volta-se para o Estado, reclamando proteção, ou seja, pretende que o Governo baixe os impostos, para travar o encarecimento dos combustíveis, pois muito daquilo que paga o consumidor de combustíveis são impostos. Ouvem-se até queixas segundo as quais o nosso governo é menos generoso do que o governo espanhol.

Mas limitar o consumo de gasolina e gasóleo, através de um preço elevado, pode fazer sentido, desde que não haja exageros. Importa, por exemplo, não facilitar a utilização de automóveis com motor de combustão, reduzindo o número de automóveis a circular apenas com uma ou duas pessoas no seu interior. O que poderia exigir uma série de benefícios para o automobilista que transporte vários passageiros.

Há países que aconselham os trabalhadores a ficarem em casa, em teletrabalho. Há outras possibilidades, menos drásticas. Estimular, por exemplo, a utilização de veículos movidos a eletricidade, em detrimento dos automóveis com motor de combustão. Infelizmente, é demasiado tarde para travar a desvalorização do caminho de ferro, enquanto se continua a apostar nas autoestradas.

Acabar com os combustíveis fósseis, substituindo-os por fontes energéticas não poluentes, é desde há anos um objetivo da maioria dos governos. Portugal até conseguiu bons resultados na produção de eletricidade, com a valorização das fontes renováveis (energia eólica, solar e hídrica). Mas, perante a enorme crise energética que vemos desenvolver-se, muitos políticos lamentarão hoje não terem feito mais na descarbonização da energia.

O petróleo tem certamente os dias contados como fonte de energia. Mas, em fim de vida, parece ter-nos brindado com a maior crise da sua história. Ainda que nas próximas semanas seja ultrapassado, o bloqueio no estreito de Ormuz irá demorar meses até o mercado petrolífero voltar a um funcionamento que poderemos chamar normal. Mesmo que este magno problema seja ultrapassado – hipótese optimista – teremos de sofrer várias limitações.

Acontece que neste momento estão em níveis perigosamente baixos no mundo os “stocks” de petróleo bruto (“crude”) e sobretudo as existências de produtos refinados, como é o caso do “jet fuel”, o combustível dos aviões.

Imagine-se um país de turismo, como Portugal, se tiver de enfrentar uma quebra no afluxo de turistas estrangeiros, que até nós chegam sobretudo por via aérea. Oxalá não aconteça, porque uma quebra dessas teria consequências muito negativas para a economia e a sociedade portuguesas.

Não se trata de uma hipótese fantasista. Já várias companhias de aviação suspenderam voos para alguns destinos. O “jet fuel” encontra-se agora a cerca do dobro do preço que vigorava em Janeiro e Fevereiro do corrente ano. A Indonésia, por exemplo, limitou as compras de “jet fuel” a 50 litros diários.