No melhor pano cai a nódoa -  Ana Abrunhosa, Presidente da Câmara de Coimbra, tinha construído um perfil político simpático, mostrou competência em diversos assuntos e aparentemente não se esquivava a um debate - veja-se o bate-boca com um Ministro depois das tempestades do início deste ano.

Na semana passada, deitou tudo a perder quando proclamou publicamente que retirava a confiança a um jornalista da Lusa que havia feito uma notícia desfavorável para a Câmara a que ela preside. 

O comportamento de Abrunhosa reflecte aquilo a que infelizmente se tem assistido, cada vez com maior frequência, por parte de responsáveis políticos na sua relação com os media.

A autarca incomodou-se com o facto de uma notícia ter sido divulgada sem a posição da Câmara - mas esqueceu-se que, interrogados pelo jornalista, os serviços da autarquia não responderam durante uma série de dias e foram dizendo que mais à frente responderiam, não o tendo feito em tempo útil.

O jornalista publicou a notícia e informou que a autarquia, contactada, não tinha respondido, o que é verdade.

Na realidade, Ana Abrunhosa entende que pode controlar o timing de publicação da notícia e que, no seu entender, as notícias deviam esperar pelo seu aval.

Cada vez mais frequentemente muitos políticos, a começar pelos membros do Governo e em particular o Primeiro Ministro, mas também líderes da oposição, querem usar os jornalistas como meros amplificadores das suas palavras.

A proliferação de conferências de imprensa e declarações sem direito a perguntas tem vindo a acentuar-se, e é uma prova do receio de que questões incómodas possam estragar a declaração cuidadosamente preparada para transmitir uma impressão positiva.

E Leitão Amaro até se propõe, disfarçadamente, rastrear a actividade de jornalistas incómodos para o Governo.

O comportamento de Ana Abrunhosa é semelhante: gostaria de não ter perguntas incómodas a que responder.

Abrunhosa, ex-Ministra de Costa e eleita pelo PS em Coimbra, tem esta atitude bizarra de “retirar a confiança” a um jornalista da Lusa, precisamente quando o futuro da governação da Agência de Notícias é tema de divergência entre o PSD e o PS.

Os socialistas temem uma instrumentalização do noticiário da agência pelo Governo, mas uma sua destacada militante pretende fazer isso mesmo na sua esfera local, pretendendo ser ela a ditar a forma de proceder dos jornalistas.

Informar, por muito que custe, é relatar o que se passa, quer o que se passa bem, quer o que se passa mal. Há quem não goste disto, talvez qualquer dia fiquem a falar sozinhos para cadeiras vazias -  e é bem feito!