A ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social determinou – e bem – arquivar uma queixa apresentada por Alberto Arons de Carvalho por este ter sido afastado da presidência do Conselho Geral Independente (CGI) da RTP, alegadamente nove meses antes de terminar o mandato.

Foi no passado mês de Fevereiro que Arons de Carvalho enviou uma exposição à ERC na qual se queixava, sem corar, que fora vítima de “uma intervenção do Governo que coloca em causa a independência da RTP face ao poder político“, instando a Entidade Reguladora a intervir, na qualidade de garante da independência dos órgãos de comunicação social.

Por estranho que pareça, o queixoso é o mesmo que corroborou, sem qualquer estremecimento - enquanto secretário de Estado da Comunicação Social de um governo liderado por António Guterres -, o afastamento liminar e precoce da então administração da RTP, lado a lado com o ministro Jorge Coelho, entretanto falecido.

Um módico de pudor aconselharia Arons de Carvalho a nunca ter presidido a um órgão dito independente da RTP, quando, afinal, independente foi algo que ele nunca foi, contando no seu currículo de governante, com a tutela do operador público, a façanha de ter substituído os gestores da RTP à época, por acaso a meio do mandato, para nomear gente fiel às cores socialistas.

Convirá introduzir aqui uma nota de declaração de interesses: o signatário integrava como vogal essa administração da RTP, presidida pelo antigo jornalista António Freitas Cruz e ouviu, de viva voz, de Jorge Coelho e de Arons de Carvalho, que, embora nada houvesse em desabono do seu trabalho na Empresa, a decisão do governo era afastá-los, interrompendo o respectivo mandato.

Cúmplice activo desta e de outras decisões parecidas, Arons de Carvalho deve estar a atravessar um bizarro estado de amnésia, para ter assinado o que escreveu na sua exposição à ERC, quando, em bom rigor, nunca deveria sequer ter tomado posse como presidente do CGI.

Infelizmente Arons de Carvalho não é caso único de falta de memória, e, como tantos outros políticos, cuja relação com a moral e a ética variam consoante a onda, parte do princípio de que “o que lá vai, lá vai” confiando no branqueamento e no esquecimento da opinião publica.

Desta vez, teve azar. Acontece… Como diz o povo “Deus escreve direito por linhas tortas”…