“Media” europeus apostam em notícias positivas para evitar fadiga dos leitores
Num contexto internacional marcado por conflitos armados e instabilidade geopolítica, vários meios de comunicação europeus estão a reforçar a aposta em conteúdos positivos como forma de contrariar o crescente afastamento do público em relação às notícias.
As consequências dos recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, em Fevereiro passado, somadas à guerra em larga escala da Rússia na Ucrânia, iniciada em 2022, continuam a dominar a actualidade mediática. Este cenário de crises sucessivas contribui para um ambiente descrito pelo The Fix como cada vez mais “ansiogénico”.
De acordo com o mais recente Relatório de Notícias Digitais do Instituto Reuters, 40% dos inquiridos afirmam evitar notícias ocasional ou frequentemente — o valor mais elevado de sempre. Entre as principais razões apontadas estão o impacto negativo no humor (39%), o esgotamento provocado pelo excesso de informação (31%) e a cobertura intensa de guerras e conflitos (30%).
Desta forma, algumas redacções europeias procuram alternativas editoriais. O jornal francês Libération lançou, em 2023, a secção «Sente-se melhor quando se lê» (Ça va mieux en le lisant), dedicada a histórias positivas. O objectivo, segundo a editora adjunta Lauren Provost, é “combater esta fadiga noticiosa que afasta os leitores das notícias”.
A iniciativa reúne conteúdos inspiradores e curiosos, promovidos diariamente através de notificações na aplicação móvel. “Já publicávamos este tipo de artigos anteriormente, mas quando tínhamos de fazer escolhas editoriais, eram frequentemente estes os temas que acabavam por ser cortados. Queríamos torná-los mais visíveis”, explicou Provost.
Também em Espanha, o meio digital The Objective criou, em 2024, a secção «The Positive», orientada para o chamado jornalismo construtivo. A directora de vendas, Daniela Quinteros, sublinha que “existe também outra realidade que muitas vezes recebe menos atenção dos meios de comunicação: a daqueles que desenvolvem soluções, inovações ou projectos com um impacto positivo”.
Esta secção funciona como uma vertente especializada dentro da redacção, articulando-se com outras áreas editoriais. O modelo permite, segundo Quinteros, conjugar “uma linha editorial clara focada no impacto positivo” com a experiência de uma equipa mais alargada.
Apesar de reconhecerem que este tipo de conteúdos gera, em regra, menos tráfego do que notícias sobre crises ou figuras polémicas, os responsáveis editoriais defendem o seu valor estratégico. “Vão ter menos cliques, visitas e conversões do que artigos sobre catástrofes ou as últimas travessuras de Donald Trump – isso é certo. Mas isso não significa que não sejam importantes. São óptimos para o envolvimento e a retenção dos leitores”, afirmou Provost.
Para além das métricas tradicionais, os editores destacam a criação de uma relação mais próxima com o público. No caso do The Objective, a secção tem contribuído para formar “uma comunidade de leitores que se sentem especialmente ligados a este tipo de jornalismo”.
O combate à chamada “fadiga das notícias” surge, assim, como uma prioridade crescente nas redacções. “O desafio da fadiga das notícias continua presente. Penso que devemos continuar a abordá-lo e não o perder de vista”, alertou Provost, que aponta também a desconfiança na informação, num contexto de pós-verdade, como um dos principais obstáculos.
As iniciativas não se limitam ao digital. O Libération publica anualmente uma edição impressa dedicada exclusivamente ao jornalismo de soluções, enquanto o The Objective lançou um podcast e os “The Positive Awards”, que distinguem projectos com impacto social e ambiental.
Ainda assim, os responsáveis sublinham que esta tendência não pretende substituir o jornalismo tradicional. “O objectivo do The Positive não é substituir o jornalismo crítico ou a cobertura dos problemas — que continuam a ser essenciais —, mas sim oferecer uma perspectiva complementar”, concluiu Quinteros.
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