Entre o caos noticioso e a credibilidade do jornalismo
A par do fenómeno muito português do excesso de comentadores, designadamente, televisivos, que ocupam boa parte dos canais temáticos, há um outro que tem vindo a acentuar-se que é o da sobre-informação digital, também conhecida como "infodemia", gerador de um certo caos noticioso e cujo volume de dados disponíveis excedem, em larga medida, a capacidade humana de processá-los de forma crítica.
Este novo fenómeno, que tem sido descrito em ensaios de estudiosos dos media, é alimentado pela velocidade instantânea das redes sociais e algoritmos, que privilegiam o envolvimento em detrimento da veracidade.
Num artigo publicado no site do Observatório de Imprensa do Brasil, o jornalista e investigador Carlos Castilho referia-se precisamente a essa nova realidade, fazendo notar que cerca de 70% dos brasileiros informam-se, exclusivamente, através de plataformas digitais como Facebook, TikTok, Instagram ou X, enquanto nos Estados Unidos esse valor se aproxima dos 90%.
Isto reflectia, segundo o autor, uma mudança profunda no paradigma informativo, em atropelo da “nossa capacidade de adaptação à nova situação”.
Estudos recentes, como o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, bem como análises do OberCom, confirmam uma crise de confiança estrutural no jornalismo tradicional.
Embora a procura por informação fidedigna esteja em máximos históricos, a ligação das audiências com os meios institucionais continua a degradar-se.
Segundo os mesmos dados, a confiança geral nas notícias estagnou nos 40% pelo terceiro ano consecutivo, permanecendo quatro pontos abaixo dos níveis registados durante a pandemia.
Em Portugal, em 2025, a confiança dos portugueses nas notícias atingiu o valor mais baixo da década, situando-se nos 54% — uma queda de 10 pontos percentuais face a 2015.
Em contrapartida, pela Europa, países como a Finlândia mantêm níveis robustos de confiança (67%), enquanto a Grécia e a Hungria registam os valores mais baixos (22%), devido à percepção de falta de independência face ao poder político.
Entretanto, as plataformas digitais criaram "bolhas de filtro", que exacerbam divisões sociais e espalham desinformação estratégica para fins políticos ou económicos.
E qualquer utilizador pode produzir e distribuir conteúdos à escala global, diluindo a distinção entre fontes oficiais e mensagens alarmistas sem origem.
O resultado é uma crise de confiança, com o público a desconfiar das instituições e do jornalismo tradicional, o que ameaça os fundamentos das democracias liberais, devido ao consumo passivo e mecânico de conteúdos, onde o "scroll" infinito substitui a reflexão profunda.
Depois, os próprios jornalistas, pressionados pela urgência de publicar primeiro - atendendo à forte concorrência e à instantaneidade da internet e dos audiovisuais – acabam por atropelar o rigor jornalístico, levando à disseminação de erros e meias-verdades.
Apesar da quebra de confiança assinalada, verifica-se, contudo, que o jornalismo profissional ainda é visto como essencial para combater a desinformação, confiando-se mais nele do que num influenciador digital.
Anote-se, ainda, que meios de proximidade, como a imprensa local e regional, mantêm níveis de confiança superiores à média nacional, devido à sua relevância directa na vida das comunidades. Perante este quadro, sobressaem ainda motivos de optimismo, impondo-se ao jornalista lutar pela sua credibilidade e independência, sem se deixar influenciar por oportunismos estéreis ou por seguidismos na moda…