No fecho de um festival de aniversário do jornal electrónico “Eco”, especializado em jornalismo económico e lançado há uma dúzia de anos, o Presidente António José Seguro aproveitou a oportunidade para dar conta das suas inquietudes, perante o estado dos media, confrontados com as plataformas digitais, que  “fragmentaram as audiências” e destruíram modelos de negócio históricos, entregando a distribuição de informação a algoritmos que “não distinguem verdade de mentira”.

É inegável que os receios presidenciais têm fartos motivos para se manifestarem, quando há grupos de media falidos, cujas publicações, em alguns casos, teimam em não fechar a porta, como é caso da revista ”Visão”, que resiste no mercado, graças ao esforço dos seus jornalistas e demais colaboradores, que decidiram não “atirar a toalha ao chão”. Ou quando sobram dúvidas sobre a verdadeira natureza da titularidade de outras empresas editoriais, que mudam de investidores e de gestores “como quem muda de camisa”, caindo numa opacidade que não é de bom augúrio.

Compreende-se, por isso, que Seguro, fique alarmado ao compulsar a diminuição na oferta mediática no País, porque “a qualidade da nossa democracia também depende da qualidade do jornalismo que é feito”.

Parece óbvio que o jornalismo em Portugal já viveu melhores dias. Nas televisões, prevalecem alinhamentos que são, principalmente em “prime time”, quase a cópia uns dos outros, com os comentadores da praxe para tudo e afins, enquanto a “tabloidização“  se instalou na  Imprensa, contaminando mesmo os chamados jornais de referência.

O resultado está à vista, favorável às grandes plataformas digitais, que concorrem na informação com as televisões e, mais ainda, com os jornais, mesmo os que se apresentam em suporte exclusivo na Internet.

Este estado de coisas gera uma forte instabilidade nas redacções , que passaram ao regime de “respiração assistida” em modo de sobrevivência.

Foi recentemente, por ocasião do   Dia Mundial das Comunicações Sociais, que  o Papa alertou  na sua mensagem contra a simulação da realidade por Inteligência Artificial,  apelando a uma comunicação não hostil que ”cure feridas em vez de gerar medo ou ódio”.

É inquestionável que o jornalismo tem perdido terreno, a favor de “influencers” ou de outros manipuladores da realidade, enquanto experimenta sérias dificuldades e medos, em lidar com as potencialidades da Inteligência Artificial.

Sente-se que o Presidente também não vive confortável com os algoritmos, ao ponto de interrogar-se sobre se a Inteligência Artificial não veio “agravar a crise”, ao permitir “produzir conteúdo em escala industrial”.

É neste contexto, ao qual não faltam as linhas vermelhas à profissão, que Seguro conclui que “o jornalismo não compete só com o jornalismo. Compete com tudo”.

Ora uma coisa é a competição no jornalismo; outra, bem diferente, é o jornalista ceder a interesses espúrios, deixando-se instrumentalizar. E quando tal acontece, é a confiança que fica abalada e refém de cumplicidades ou de oportunismos. Tudo o que o verdadeiro Jornalismo precisa de combater.