Enquanto o Sindicato dos Jornalistas se envolveu numa trapalhada de alterações estatutárias, correndo o risco, na prática, de ficar transformado numa espécie de “albergue espanhol”, nas redacções multiplicam-se as incertezas à medida que as novas tecnologias avançam, designadamente, a Inteligência Artificial (IA).

Não é inédito. Nos anos 60 do século passado - e por estranho que hoje nos pareça - a máquina de escrever ainda não fazia parte da rotina profissional da maioria dos jornalistas. E, mais insólito ainda, não faltaram as resistências a essa inovação, como mais tarde se verificaria novamente, quando muitos jornalistas demoraram a aceitar o computador e a reconversão dos seus hábitos de escrita impostos pela introdução deste equipamento.

É um facto que  custará, talvez, a ser compreendido pelas novas gerações de jornalistas, que nasceram já “formatadas” para o computador, o “tablet” ou o telemóvel. E, talvez por isso, tendem a desvalorizar ou a subestimar o grande desafio que se lhes coloca com o advento da IA na redacções. Um erro que pode sair-lhes caro.

Um estudo recente, “Future Newsrooms 2026", promovido pela WAN-IFRA e pela FT Strategies, com base em 448 respostas únicas de redacções em 86 países, é muito revelador sobre o “estado da arte” e deveria ser objecto de estudo atento por todos os jornalistas interessados em não perder o “comboio tecnológico”, no qual terão de embarcar.

A primeira conclusão desse estudo é a de que “não existe uma resposta única para como deve ser a sua redacção do futuro”, mas são já visíveis as tendências dominantes, que poderão condicionar esse futuro. A saber: a estratégia — o fosso entre ambição e o instinto; a construção da confiança da audiência; a capacitação e a abordagem à IA; e as competências e a importância da especialização.

Não é este o espaço próprio para desenvolver e analisar cada um dos segmentos abrangidos pelo estudo, mas são de leitura obrigatória para qualquer jornalista que queira manter-se actualizado e a par daquilo que o futuro próximo lhe reserva.

Há desde logo um indicador para o qual apontam as conclusões do estudo:  “quando o conteúdo genérico se torna mais fácil de produzir, a vantagem muda para o que é mais difícil de replicar: jornalismo original, relações de confiança e comunidades que dão às audiências um motivo para regressar. Para competir neste ambiente, as redacções terão de redefinir alguns dos seus pressupostos fundamentais”.

Note-se, ainda, que entre os resultados do estudo, no capítulo das competências e da especialização, se verifica uma mudança drástica no perfil do jornalista, quando é referido que “as redacções preparadas para o futuro estão a passar de um generalismo alargado para uma especialização mais acentuada. Estão a investir em competências que combinam a arte jornalística e a profunda especialização num tema, com a fluência de formatos, a inteligência de audiências e a literacia técnica”.

Curiosamente, em paralelo com a divulgação das conclusões do estudo promovido pela WAN-IFRA e FT Strategies, a agência Lusa distribuiu uma entrevista com Riccardo Terzi, responsável da Google para o sul da Europa, para quem o futuro dos media "nesta fase, é um futuro de readaptação, provavelmente da sua organização, do seu modelo de negócio". Não é uma coincidência fortuita.

Para este responsável pelas parcerias da Google, cuja entrevista visou, também, o futuro das redacções, a IA pode representar uma oportunidade muito interessante para os media, admitindo que haverá uma evolução no perfil de jornalista.

E não deixa de assinalar que “a IA pode representar uma oportunidade muito interessante para os media, para os media tradicionais e para a indústria” do sector, embora considere que “muitas coisas ainda têm de ser ajustadas ao novo modelo”.

Por aqui se vê que os jornalistas “não podem adormecer na forma”. alheando-se perante os novos desafios, ou dispersando-se em assuntos menores, sob pena de serem inexoravelmente ultrapassados, tal como outros o foram no passado, ao resistirem nas redacções ao advento da máquina de escrever ou do computador.

Em resumo: a IA tanto poderá ser uma formidável ferramenta para facilitar e robustecer o trabalho do jornalista, como poderá ditar o declínio profissional daqueles que não souberem ou não forem capazes de a assimilarem, colocando-a ao seu serviço.