O País dos “comentadores” de televisão…
Perde-se já o conto por tantos serem os políticos subitamente convertidos em comentadores políticos de televisão. É uma espécie de febre contagiosa que tem alastrado nos estúdios, como se fosse epidémica.
O caso mais recente é o do almirante Gouveia e Melo, um dos grandes derrotados das últimas eleições presidenciais que, submarinista por vocação profissional - mais tarde coordenador da logística das vacinas relacionadas com o Covid e chefe de estado Maior da Armada, que jurou de viva voz nunca querer ser político -, acabou de reaparecer em antena, “fardado” de comentador politico da CNN Portugal.
Este fenómeno dos políticos-comentadores, uma originalidade bem portuguesa, teve como pioneiro Marcelo Rebelo de Sousa, que acumulava a sua prédica dominical na televisão com a de professor universitário, jurista prestigiado, político rodado, jornalista interventivo, e presidente nas horas vagas da Fundação da Casa de Bragança, instituição responsável pelo Palácio de Vila Viçosa.
Depois dele e de Luís Marques Mendes, que o substituiu no mesmo espaço de comentário televisivo ao longo de vários anos , até se convencer que tinha o lastro bastante para se candidatar a Belém – um erro de calculo que lhe saiu caro - , o elenco de políticos-comentadores aumentou exponencialmente, sendo hoje uma espécie de “praga” tão banalizada quanto nociva, até para os próprios, convencidos de que o que dizem em antena é mais importante do que serem deputados, autarcas ou mesmo governantes, chegando ao ponto de acumularem funções.
Carlos Moedas e Pedro Duarte, que presidem aos dois municípios mais importantes do País – Lisboa e Porto -, apesar da governação complexa de ambas as cidades, cujos problemas se eternizam, pelos vistos ainda lhes sobra tempo para prepararem as suas análises políticas para as debitarem semanalmente em dois canais de informação.
Esta tentação televisiva, que mobiliza gente de todos os credos ideológicos – e até religiosos, onde se destaca o cardeal D. Américo Aguiar, cujas intervenções nada têm a ver com as dos seus antecessores, essencialmente de natureza pastoral -, concorre com os especialistas desportivos, em particular no futebol, capazes da proeza frequente de comentarem um jogo durante muito mais tempo do que este efectivamente durou.
Com tantos comentadores - que se estendem, ainda, às mais variadas áreas do conhecimento, desde a virologia, às guerras que dilaceram o mundo ou às alterações climáticas – seria de presumir que a sociedade portuguesa fosse sobremaneira informada e a opinião publica um modelo de robustez.
Infelizmente, não faltam os entendidos a garantir que assim não é, e que, por isso mesmo, é necessário explicar tudo à minucia. E dão como exemplo os painéis de comentadores, que se afadigam a “explicar” o que acabámos de ouvir ao Presidente da República, ao primeiro ministro ou, ainda, a um dos líderes das oposições, como se não tivéssemos percebido nada…
Moral da história: se o País não avança não é por falta de pastores, ungidos de uma sabedoria evangelizadora, cuja suprema missão consiste em transmitir o que pensam, empenhados em ensinar e doutrinar o povo...
Disse um dia Medina Carreira, com a frontalidade que lhe era conhecida, que "o problema de Portugal não é a falta de dinheiro, é a falta de vergonha” … Tinha e tem razão.