O fortalecimento do jornalismo profissional é essencial para a preservação das liberdades
Num contexto marcado pela desinformação, polarização política e crescente hostilidade contra a imprensa, a sustentabilidade económica do jornalismo profissional tornou-se um dos principais desafios das democracias contemporâneas. A reflexão foi apresentada num artigo de opinião do jornalista Hélio Gama Neto para o Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), que analisa os impactos das plataformas digitais, da inteligência artificial e do avanço de práticas autoritárias sobre a liberdade de imprensa e o funcionamento das sociedades democráticas.
Segundo o autor, conteúdos jornalísticos produzidos com rigor e responsabilidade enfrentam hoje dificuldades acrescidas para conquistar atenção pública nas redes sociais, onde predominam "publicações carregadas de ódio, impulsionadas pelo viés de confirmação”. “Há uma disputa diária, minuto a minuto, pela atenção e pela confiança das pessoas”, escreve, acrescentando que o jornalismo oferece “informação confiável, análises criteriosas, histórias reais e conteúdos produzidos a partir do dever de escrutinar tudo aquilo que é realizado com dinheiro público e por detentores de poder”.
O texto sustenta que os algoritmos das grandes plataformas digitais favoreceram modelos de negócio baseados no engagement permanente, privilegiando conteúdos capazes de gerar reacções emocionais intensas. De acordo com o autor, “materiais carregados de indignação e raiva continuam a impulsionar likes, partilhas e comentários numa escala muito superior aos conteúdos produzidos a partir de critérios técnicos, verificação e responsabilidade editorial”.
A análise destaca ainda que a fragilidade financeira dos órgãos de comunicação social afecta directamente a qualidade do espaço público e da democracia. “O jornalismo profissional funciona como uma infraestrutura democrática. Isto não é uma frase de efeito. Sem informação confiável, não existe participação social qualificada, controlo público nem desenvolvimento sustentável”, afirma.
No artigo, Hélio Gama Neto defende que plataformas digitais, motores de busca e sistemas de inteligência artificial dependem do trabalho jornalístico, científico e cultural produzido por seres humanos. Sem essa produção, alerta, o ambiente digital tende a degradar-se progressivamente, passando a ser alimentado por conteúdos manipulados, repetitivos ou falsos. “Sem jornalismo profissional, produção científica, pesquisa académica e criação artística autoral, as próprias plataformas digitais e os sistemas de IA tendem a empobrecer”, escreve.
A reflexão surge num momento em que organizações internacionais têm vindo a alertar para o agravamento das ameaças à liberdade de imprensa. O jornalista recorda dados divulgados por entidades como os Repórteres Sem Fronteiras, a Sociedade Interamericana de Imprensa e o Comité para a Protecção dos Jornalistas, que apontam para um aumento da censura, do assédio digital e da violência contra jornalistas em vários continentes.
O artigo menciona ainda que práticas autoritárias têm vindo a normalizar-se mesmo em países com tradição democrática consolidada: “vivemos um período de crescimento da intolerância política, enfraquecimento institucional e aumento da hostilidade contra a imprensa independente, circulação de informação e produção de conhecimento”, refere o autor.
Ao longo do texto, é igualmente sublinhada a importância do diálogo democrático e da circulação livre de ideias. Inspirando-se na obra do filósofo Jürgen Habermas, o autor defende uma democracia baseada no debate racional e na construção colectiva de consensos. “Quando desaparece a possibilidade de diálogo construtivo, respeitoso e responsável, perdemos a capacidade de avanço social, económico e político”, escreve.
O jornalista relata também episódios recentes de hostilidade contra jornalistas, apontando para campanhas de intimidação e descredibilização nas redes sociais. Como exemplo, refere um episódio que envolve o senador Flávio Bolsonaro e o jornalista Thalys Alcântara, do Intercept Brasil, após a divulgação de uma investigação relacionada com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na parte final do texto, associa directamente a fragilidade económica do sector da comunicação social à capacidade de resistência dos meios independentes perante pressões políticas e campanhas de manipulação. “Modelos económicos frágeis, sufocados pela lógica de receita das big techs, a falta de remuneração pelo uso de conteúdo jornalístico e um sistema assimétrico [...] agravam a vulnerabilidade de veículos independentes”, sustenta.
O artigo conclui que o fortalecimento do jornalismo profissional é essencial para a preservação das liberdades democráticas. “O desafio democrático do nosso tempo é garantir as liberdades, o aperfeiçoamento permanente da democracia e a sustentabilidade do jornalismo”, afirma o autor, defendendo mais investimento em investigação jornalística, cobertura local e formatos acessíveis ao público.
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