“Podcasts” noticiosos apostam cada vez mais no vídeo
Depois de anos de crescimento dos podcasts de notícias assente sobretudo no áudio, as grandes organizações de media começam agora a investir fortemente no vídeo, numa tentativa de alcançar audiências mais jovens e adaptar-se aos novos hábitos de consumo digital.
A conclusão surge num relatório divulgado pelo Instituto Reuters, que aponta o YouTube como uma plataforma cada vez mais central no universo dos podcasts.
“As pessoas partilham excertos no Instagram, no TikTok e no YouTube Shorts. Acho que o público é novo e maior”, afirmou Nina Lassam, responsável pela área de áudio e vídeo do The New York Times.
Segundo o estudo, muitas editoras não estão a abandonar o áudio tradicional, mas reconhecem que, para uma geração mais jovem, o conceito de podcast já está fortemente associado ao vídeo e ao YouTube.
Conteúdos mais rápidos e reactivos
O relatório mostra igualmente uma mudança editorial significativa. Os programas longos, altamente produzidos e inspirados em formatos como Serial, estão a perder prioridade face a conteúdos mais rápidos, reactivos e centrados na actualidade diária.
“Os podcasts tornaram-se mais reactivos”, explicou Phil Maynard, do The Guardian. “Os podcasts que demoravam dois a três dias a produzir não eram necessariamente o que o público queria. Também queriam conteúdo reactivo e queriam que as pessoas em quem mais confiavam lhes dissessem o que tinha acabado de acontecer”, acrescentou.
Foi nesse contexto que o The Guardian lançou The Latest, um videocast diário de dez minutos derivado do podcast de análise Today in Focus.
O vídeo cresce, mas o áudio continua essencial
Apesar da aposta crescente no vídeo, o estudo mostra que os hábitos dos ouvintes continuam fortemente ligados ao contexto em que consomem conteúdos.
“Os podcasts encaixam bem na minha rotina porque me permitem estar informado e entretido sem ter de lhes dedicar um tempo exclusivo”, afirmou Ben, um britânico de 23 anos entrevistado pelo Instituto Reuters.
Muitos utilizadores alternam entre vídeo e áudio consoante estão em casa, no trabalho ou em deslocação. Jamie, um norte-americano de 47 anos, explicou que consome sobretudo vídeo quando trabalha remotamente, mas muda para áudio quando está fora de casa.
A conveniência continua, portanto, a ser um factor determinante.
Outro entrevistado, Nathan, de 31 anos, destacou que o vídeo lhe permite “ver melhor as emoções” dos participantes. Ainda assim, utiliza o YouTube sobretudo porque já consome outros conteúdos na plataforma e prefere manter tudo “no mesmo lugar”.
Spotify e YouTube reforçam aposta
O relatório refere que o Spotify já tinha, em 2024, mais de 250 mil podcasts em vídeo disponíveis. Metade dos 20 programas mais populares da plataforma já oferecem versões filmadas, incluindo The Joe Rogan Experience e Call Her Daddy.
Já os Apple Podcasts só começaram recentemente a suportar podcasts em vídeo, demonstrando como o mercado continua em rápida evolução.
Nem todos os formatos funcionam em vídeo
Apesar do entusiasmo em torno dos videocasts, nem todos os programas parecem beneficiar da transição visual. O caso mais evidente é o The New York Times e o seu principal podcast noticioso, The Daily, que continua fortemente ancorado no áudio.
“Tornar o The Daily exactamente igual em vídeo seria um desafio”, admitiu Nina Lassam. “Os nossos ouvintes passaram a valorizar a relação que têm com este jornalismo em áudio.”
O programa mantém-se, aliás, como o podcast noticioso mais mencionado nos Estados Unidos, segundo a pesquisa do Instituto Reuters, seguido pelo Up First, da NPR — outro formato essencialmente áudio.
Um desafio estratégico para os media
Para as organizações jornalísticas, a aposta no vídeo ultrapassa a questão editorial e entra directamente na sobrevivência do negócio. “O desafio para o negócio como um todo é que estamos a tentar manter a visibilidade face ao colapso das pesquisas e ao crescimento da IA”, afirmou John Shields, do The Economist. “E os vídeos dos podcasts cristalizam este dilema”, concluiu.
O relatório sugere, assim, que o futuro dos podcasts poderá passar por modelos híbridos, capazes de responder simultaneamente às audiências tradicionais do áudio e aos novos públicos que descobrem conteúdos através do vídeo, das redes sociais e dos algoritmos das grandes plataformas digitais.
(Créditos da imagem: Unsplash)