O jornalismo enfrenta uma nova transformação estrutural provocada pelo avanço da inteligência artificial generativa, numa mudança que poderá alterar profundamente a forma como as notícias são consumidas, distribuídas e reconhecidas no ambiente digital. A tese é defendida por Eliseu Barreira Junior e Elizabeth Saad, num artigo do Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, no qual alertam para o surgimento de uma nova disputa: a visibilidade dentro dos próprios sistemas algorítmicos. 

Segundo os autores, durante as últimas duas décadas o jornalismo procurou sobreviver através da expansão constante da sua presença digital. Sites, aplicações, redes sociais, newsletterspodcasts e vídeos curtos passaram a integrar uma estratégia comum orientada para captar atenção num ambiente cada vez mais fragmentado. 

“Estar ausente de um canal passou a ser visto como risco; estar presente, como garantia mínima de relevância”, escrevem Eliseu Barreira Junior e Elizabeth Saad, sublinhando que a lógica multiplataforma surgiu também resposta à transformação dos hábitos de consumo informativo. 

No entanto, os investigadores argumentam que essa estratégia trouxe também novas fragilidades. A dependência das plataformas digitais expôs os meios de comunicação às alterações constantes dos algoritmos e à instabilidade das audiências. 

Agora, defendem os autores, a ascensão da inteligência artificial generativa poderá inaugurar uma fase distinta. Em vez de o utilizador navegar entre múltiplos canais, a informação tende a ser sintetizada numa única interface inteligente, capaz de interpretar conteúdos em tempo real e apresentar respostas já processadas. 

“Mais do que ocupar espaços, será necessário compreender os sistemas que organizam esses espaços”, afirmam. 

Os autores apontam como exemplo os testes realizados pela Google, que passou a experimentar sistemas de pesquisa integrados com inteligência artificial capazes de resumir páginas e reorganizar a navegação dos utilizadores. Nesse modelo, explicam, “a página jornalística ainda existe, mas sua leitura passa a ocorrer sob a supervisão de um sistema que reorganiza o acesso e redefine a experiência informativa”. 

Para Eliseu Barreira Junior e Elizabeth Saad, o impacto mais profundo não reside apenas na automatização de tarefas jornalísticas, mas na capacidade dos sistemas inteligentes de coordenar e reorganizar fluxos informativos. “O jornalismo deixa de disputar apenas atenção humana e passa a disputar relevância dentro de sistemas que decidem o que será mostrado”, sustentam. 

Segundo a análise, esta nova mediação algorítmica poderá transformar a inteligência artificial numa espécie de “metaplataforma”, operando acima das redes sociais e motores de busca tradicionais. O utilizador deixa de aceder directamente às fontes e passa a receber conteúdos filtrados, sintetizados e reorganizados por sistemas invisíveis. 

Os investigadores alertam que esse processo pode colocar em risco a autoria e a identidade editorial das organizações jornalísticas. “Quando uma resposta sintetizada substitui a navegação directa, o conteúdo continua a existir, mas a relação com a sua origem pode tornar-se opaca”, escrevem. 

Ainda assim, os autores defendem que a credibilidade das marcas jornalísticas poderá ganhar novo valor estratégico. Num ambiente saturado por conteúdos recombinados, factores como confiança, rastreabilidade e consistência editorial tendem a tornar-se elementos decisivos tanto para os utilizadores como para os próprios algoritmos. 

“A marca jornalística não desaparece, mas precisa reposicionar-se”, afirmam, acrescentando que os meios deixam de funcionar apenas como destinos de audiência para assumirem um papel de referência dentro de ecossistemas mediados por inteligência artificial. 

O texto alerta também para as implicações políticas da nova arquitectura digital. Os autores sustentam que a “orquestração algorítmica não é neutra” e pode reproduzir desigualdades, enviesamentos e mecanismos de exclusão, influenciando directamente a forma como as narrativas são hierarquizadas e reinterpretadas. 

Para Eliseu Barreira Junior e Elizabeth Saad, o principal desafio contemporâneo do jornalismo deixou de ser apenas tecnológico e passou a ser estratégico. “Produzir informação confiável continua a ser condição necessária, mas já não suficiente”, defendem. 

Na conclusão, os autores traçam um paralelo entre os algoritmos e a função tradicional de edição jornalística. “A inteligência artificial começa a desempenhar um papel semelhante ao de um editor — não um editor humano, visível e accountable, mas um editor invisível que reorganiza silenciosamente o fluxo de informação.” 

Se a era das plataformas obrigou o jornalismo a disputar atenção, concluem, a era da inteligência artificial poderá obrigá-lo a disputar algo ainda mais decisivo: “a própria visibilidade dentro das máquinas”. 

(Créditos da imagem: Unsplash)