A erosão (continuada) da imprensa regional e local
O jornal Correio do Minho cometeu a proeza de festejar, recentemente, um século de publicação, quando muitos outros títulos da Imprensa regional e local soçobraram e ficaram pelo caminho. E alguns com um respeitável histórico.
De acordo com dados fiáveis, nas últimas duas décadas Portugal perdeu mais de 1.200 publicações periódicas (de cerca de 2.064 para 860, segundo uma análise da Marktest com base em dados do INE). Esta contagem incluiu imprensa nacional, regional e especializada.
Um estudo sobre o jornalismo regional concluiu que, desde a crise financeira de 2011, desapareceram cerca de 430 títulos jornalísticos regionais portugueses.
Por seu lado, a ERC indiciou uma tendência contínua de redução dos títulos de imprensa regional, entre 2017 e 2024, acompanhando a quebra da imprensa nacional.
Quanto às principais causas da falência de tantos títulos, num país cujo universo mediático sempre foi restrito - agravando consideravelmente os chamados “desertos noticiosos” -, figuram a quebra da publicidade, a diminuição das vendas em papel, a redução dos apoios à distribuição, a digitalização sem modelo de negócio sustentável, o despovoamento do interior, ou o aumento dos custos de produção.
Compreendem-se, por isso, as preocupações manifestadas pelo Presidente da República durante a cerimónia comemorativa do centenário de Correio do Minho.
Disse António José Seguro, ao associar-se às festividades do jornal minhoto, que “a imprensa regional é muito mais do que um meio de comunicação. É um pilar da democracia e um agente de desenvolvimento das nossas comunidades”. Tem razão.
Ele próprio sabe do que fala, por ter sido fundador e primeiro director, nos seus verdes anos, de um jornal local. E fez questão de recordá-lo, confessando que “se hoje desempenhasse esse papel, viveria momentos de inquietação. Como garantir a sustentabilidade e a continuidade de um jornal regional?”.
É esse o ponto. A Imprensa regional e local já foi vista, até pela sua lógica de proximidade com leitores e assinantes, como um nicho de mercado com fortes condições de resistência e de sobrevivência aos ventos de mudança.
Só que não estava preparada para concorrência das grandes plataformas digitais, das redes sociais, e das novas opções geracionais, que passaram a privilegiar o digital na sua informação em lugar do papel.
A concentração dos media nas grandes cidades e o despovoamento gradual do interior fizeram o resto.
É verdade, como afirmou Seguro, que “está em causa o jornalismo de proximidade, com as linguagens e narrativas próprias das culturas locais e regionais, que nenhum algoritmo saberá replicar”.
O problema é que até a distribuição de jornais e de outras publicações regulares, generalistas e especializadas, esteve sob ameaça pela distribuidora monopolista de imprensa, que admitiu eliminar circuitos menos rentáveis, com relevo para os do interior.
A Imprensa regional e local costuma assumir-se como uma voz indispensável para as comunidades sem representação nos media de âmbito nacional, E compete-lhe, também, um escrutínio fundamental em relação às politicais locais e regionais,
Faz sentido, assim, que Seguro tenha preconizado que "defender a imprensa regional é defender uma democracia mais forte e comunidades mais informadas, participativas e preparadas para enfrentar os desafios do futuro".
Resta saber se vamos a tempo de travar a hemorragia em curso, perante o “encolher de ombros” de muito boa gente, que prefere “meter a cabeça na areia”….a usá-la para modificar o curso das coisas…