“Os criadores de conteúdo tomaram o espaço do jornalista”
Os jornalistas precisam de recuperar espaço e relevância nas redes sociais perante o crescimento dos criadores de conteúdos, afirmando-se como figuras de “autoridade, rigor e ética”. A discussão decorreu num debate promovido pela Asociación de la Prensa de Madrid, onde profissionais dos media reflectiram sobre os desafios do jornalismo no ambiente digital.
Pilar Bernal, da RTVE, explicou que as redes sociais têm hoje um papel central para os media públicos, não apenas como espaço de distribuição de conteúdos, mas também como ferramenta de reputação e contacto com novas audiências. Segundo afirmou, “o desafio que ambicionamos neste momento é que o nosso conteúdo, a valiosa marca dos nossos jornalistas, tenha também esta capacidade de mudar de tom, de formato e de se adaptar para comunicar de uma forma diferente”. Para Bernal, “os criadores de conteúdos tomaram o espaço do jornalista; a nossa ambição é recuperá-lo, com os nossos jornalistas a representarem a autoridade”.
Também Guacimara Castrillo, do El Mundo, rejeitou a ideia de que as redes sociais sejam um problema para o jornalismo. “As redes sociais não são o inimigo; temos lá um público enorme”, afirmou, destacando que no TikTok do jornal a média etária é inferior a 30 anos. Para Castrillo, os jovens continuam interessados em informação, mas esta precisa de se adaptar às dinâmicas das plataformas digitais. Em vez de uma “infantilização” da informação, considera que existe sobretudo uma simplificação dos conteúdos devido ao ritmo acelerado de consumo. “Para atrair novos públicos, a informação precisa de ser prática e educativa”, defendeu.
Ángel Villarino, do El Confidencial, chamou a atenção para o impacto económico das redes sociais nos media tradicionais. Segundo explicou, “os media estão entre as primeiras vítimas das redes sociais, porque perdemos receitas publicitárias”. Ainda assim, considera essencial marcar presença em plataformas como Instagram e TikTok para conquistar novos públicos e tentar recuperar parte da rentabilidade publicitária hoje dominada pelas grandes plataformas tecnológicas.
Já Francisco Sierra sublinhou que as redes sociais devem ser entendidas como ferramentas cujo impacto depende da forma como são utilizadas. Recordou que inicialmente eram vistas como espaços de democratização, mas que, entretanto, se tornaram ambientes marcados pelo caos informativo e pela desinformação. Nesse contexto, acredita que “a presença de publicações que ofereçam o rigor e a ética dos grandes meios de comunicação seja mais necessária do que nunca”.
O debate serviu ainda para apresentar o livro As Redes Sociais como Fonte de Informação, de Carmela Ríos, especialista em redes sociais, jornalismo móvel e desinformação. A autora explicou que o objectivo da obra é mostrar “que é possível trazer ordem ao caos”, oferecendo ferramentas práticas para transformar a informação dispersa das redes em jornalismo fundamentado. Segundo Ríos, o livro nasce da necessidade de desenvolver métodos mais eficientes de gestão da informação num ecossistema digital marcado pela velocidade e excesso de conteúdos.
(Créditos da imagem: Asociación de la Prensa de Madrid)