Lê-se e não se acredita. O Museu Nacional da Imprensa, sedeado no Porto, está fechado desde 2022 e não se perscruta no horizonte próximo uma data para reabrir.

Recorde-se que, ainda em 2023, o antigo director e impulsionador do Museu, Luís Humberto Marcos, não hesitou em denunciar publicamente a situação, considerando que o encerramento - feito a pretexto da falta de segurança das instalações -, fora um alibi ou um biombo para “a destruição silenciosa do Museu Nacional da Imprensa.”

De facto, o impasse - que dura há três anos, envolvendo a Câmara Municipal do Porto, a Associação Museu da Imprensa e actores do sector cultural -, tem originado, na prática, que o espólio se encontre inacessível, num edifício sem actividade, com o futuro da instituição por definir, como aqui se referiu em noticia anterior.

Aparentemente, porém, esta realidade deplorável não incomoda quem deveria tomar a decisão necessária para suprimir as deficiências das instalações, a ser o caso, preservando o importante acervo e a memória guardada no Museu.

Note-se que Lisboa assistiu, passivamente, ao encerramento de jornais e de edifícios históricos que poderiam albergar um Museu de imprensa condigno.

O caso mais recente foi a “reconversão” do edifício-sede do Diário de Noticias, no topo da avenida da Liberdade, adaptado no interior para acolher apartamentos e lojas de luxo. Foi mais uma vítima da especulação imobiliária na zona, restando apenas a fachada, encimada pelo “lettering” do jornal, uma hipocrisia.

No Porto, também o edifício-sede do Jornal de Notícias mudou de mãos para ser convertido em hotel, por aquilo que foi noticiado.

E o Museu da Imprensa parece ser, igualmente, alvo da cobiça imobiliária, apesar de ter sido reconhecido como instituição de Utilidade Pública (governo de Cavaco Silva), obtendo ainda o estatuto de “instituição relevante para o desenvolvimento científico e tecnológico do país e de Manifesto Interesse Cultural”’.

Sucede que, como o edifício do museu está localizado na zona ribeirinha de Campanhã, que sempre despertou a gula imobiliária, Humberto Marcos escreve que “o museu está neste momento ameaçado”, enquanto o seu prolongado encerramento corre o risco de degradar o seu património.

Em contrapartida, o Museu da Imprensa da Madeira, inaugurado em 2013, respira saúde. Localizado em Câmara de Lobos, oferece aos visitantes uma viagem pela história da indústria gráfica e editorial da Região Autónoma. Um exemplo pela positiva.

Porém, a apatia que tem acompanhado o fecho do Museu de Imprensa do Porto é semelhante ao “encolher de ombros“ perante o desaparecimento dos patrimónios documentais de jornais que, entretanto, cessaram a  publicação, como O Século, O Primeiro de Janeiro ou O Comércio do Porto, cujos arquivos foram vendidos , dispersos ou destruídos, eliminando-se a possibilidade de reconstituição de uma importante memória histórica. Estamos assim: cada vez mais viciados na “espuma dos dias”, dominados ou condicionados pelo “fait divers” e pelas peripécias do quotidiano. Vive-se uma época de perigosa indiferença, como se o passado que conta seja somente o de hoje. E amanhã se verá…