Alargar o deserto…
Não é propriamente uma novidade a crise da imprensa: tiragens a descer, investimento publicitário desviado para outros meios, diminuição dos postos de venda. Em resumo: quebra das receitas da venda em papel a um ritmo que não é compensado pelas receitas de assinaturas e publicidade que vêm das edições digitais.
Basta olhar para os números do investimento publicitário: no início deste século a imprensa captava a segunda maior fatia de publicidade, cerca de 20%, logo a seguir à televisão. Hoje em dia o investimento publicitário em jornais e revistas impressos significa cerca de 1,5% do mercado total e está em penúltimo lugar.
Já existem regiões do país onde não há postos de venda de jornais e revistas e a situação tende a agravar-se já que a VASP, a única distribuidora de imprensa, está a considerar redefinir a sua actividade em oito distritos (Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança), porque nessas zonas os custos de distribuição excedem as receitas obtidas.
Além dos jornais, a VASP distribui também livros, o que agrava ainda mais a perspectiva de destruição dos hábitos de leitura em vastas zonas do interior do país.
Pedro Duarte, o anterior ministro que acompanhava estes temas, anunciou em Novembro de 2024 um Plano de Acção para os Media. Passado um ano, não se concretizou a prometida ajuda para garantir a distribuição de imprensa em territórios com baixa densidade populacional. Pedro Duarte, que era mais sensível ao tema, foi eleito Presidente da Câmara Municipal do Porto e o novo titular da pasta, António Leitão Amaro, confrontado com a posição da VASP, lavou as mãos do assunto e declarou não querer intervir.
A posição do Governo não vem de falta de conhecimento, é apenas uma esperteza que lhe dá jeito: menos imprensa significa menos escrutínio, menos informação, menos acompanhamento noticioso local.
Ao Governo pouco interessa que se percam hábitos de leitura ou que haja desertificação noticiosa, convictos que estão de que as redes sociais onde os Ministros tentam brilhar são mais que suficientes para manter a plebe informada.
Não pensam nos cidadãos mais idosos que contam com os jornais em papel como principal fonte de informação. Mas sabem que na imprensa, cada vez com menos receitas, este apagamento de parte do país significará ainda maior quebra de receitas, o que se traduzirá em redacções ainda mais pequenas e com menos capacidade de investigação jornalística. Ou seja, uma sociedade menos informada.
Se somarmos a isto os planos para a agência Lusa, agora nas mãos do Estado e com os seus responsáveis a serem nomeados pelo Governo, temos um cenário preocupante quanto à independência, à qualidade e à difusão da informação.
(texto publicado originalmente no Jornal de Negócios )