Conheci um gestor ao tempo em que o Diário de Notícias pertencia ao sector público que, após ter sido feita a informatização da redacção do jornal — uma operação, à época, complexa e demorada — pretendia controlar a produtividade dos jornalistas, através do volume de “batidas” tecladas nos respectivos terminais de computador.

Claro que esta ideia peregrina seria refutada, de imediato, pela direcção editorial do jornal e nunca foi aplicada, ou seja, foi tão efémera que hoje, provavelmente, já ninguém se lembra do episódio.

Nessa altura, a informatização editorial das redacções fazia-se com as resistências do costume, sempre que está em causa algo de novo, e com as atribulações e dúvidas da praxe até o sistema estar plenamente implementado e operacional.

Vem esta história a propósito de outra revolução que está em curso nas redacções, com o surgimento de ferramentas de Inteligência Artificial, que estão a provar terem aptidão para substituír o jornalista em numerosas tarefas, designadamente, naquelas rotinas que se aperfeiçoavam na tarimba.

Mais uma vez, o jornalista, confrontado com outra revolução tecnológica, reage lentamente, tarda em interiorizar o significado e a importância da mudança, e, em muitos casos, rejeita adaptar-se à nova realidade, como já se verificou no passado, no processo de informatização editorial.

E até o Sindicato dos Jornalistas, alarmado com a diminuição de associados e, obviamente, de receitas, se propõe alterar os estatutos para se transformar numa espécie de “albergue espanhol”, onde cabem todos, desde que trabalhem paredes-meias num jornal, ou nos estúdios da rádio ou da televisão, sem perceber que a proposta, a consumar-se, apenas enfraquece o jornalista, cuja credibilidade tem sofrido verdadeiros tratos de polé…

Ora, a nova realidade digital obriga o jornalismo a repensar profundamente a sua relação com os factos, com o público e com as suas próprias rotinas profissionais.

O ecossistema mediático actual exige mais do que a mera transmissão de dados — exige a reconstrução da confiança numa era de desinformação em massa.

Escreveu Carlos Castilho, prestigiado jornalista e investigador brasileiro no site do Observatório de Imprensa do Brasil, que “o jornalismo tradicional está perdendo gradualmente suas principais referências teóricas construídas a partir de conceitos liberais-democráticos. Parâmetros como isenção, imparcialidade, objetividade, direitos autorais, sigilo de fonte e liberdade de expressão estão sendo questionados no dia a dia da profissão por novas forças sociais surgidas com a quebra dos paradigmas sociais analógicos”.

E este é apenas um dos lados da história. Porque do outro está a “monetização” do trabalho do jornalista, cuja eficácia já não será medida pelo seu conteúdo e rapidez no teclado, mas, cada vez mais, pelo número de visitas ou de “likes” que o seu texto mereceu na Internet. 

Esta interacção entre o autor da peça jornalística e o seu público potencial poderá arrastar o profissional para uma armadilha, na qual poderá contar mais o “gosto” da audiência do que a fidelidade e o rigor do seu testemunho.  

Ou seja: o público deixou de ser um receptor passivo. Os cidadãos agora produzem, distribuem e comentam conteúdos, forçando os jornalistas a adoptar uma postura de diálogo e transparência, em lugar de uma autoridade vertical. 

Em conformidade, os valores-notícia tradicionais competem agora com a “ditadura do clique” e das métricas de audiência em tempo real, gerando tensões éticas entre o interesse público e o conteúdo viral.

Com a multiplicação de directos nas televisões e rádios, e o aparecimento de novas publicações digitais, evaporou-se o antigo conceito da "hora de fecho", tanto no jornal impresso como no telejornal. O fluxo de trabalho é, doravante, de actualização permanente, o que colide, amiúde, com o tempo necessário para a reflexão e validação, anulando ou subalternizando o desejável cruzamento das fontes.

Será que este novo modelo conceptual obriga o jornalismo a repensar a sua relação com os factos e, principalmente, com as pessoas? Será que as rotinas, normas e valores que ainda fazem parte da cultura profissional estão a tornar-se obsoletos, perante o acumular de inovações tecnológicas, que alteraram radicalmente a forma como os jornalistas lidam com a informação?

São tantas as questões que se colocam nesta fase de transição, que seria até natural que o jornalista perdesse o sono a equacionar o futuro.

O advento da Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista e converteu-se na infraestrutura central das redacções modernas. O seu impacto divide-se entre a eficiência operacional e os novos dilemas éticos. Por isso, não adianta querer adiar ou subestimar os factos, na típica atitude de “meter a cabeça na areia”.

Se o jornalista não assumir esta profunda mudança e não chamar a si a IA como ferramenta instrumental outros o farão por ele. Tal como a informatização editorial dos anos 80 do século passado, também a IA terá de ser moldada agora, sem perda de tempo, e encarada como um aliado e não como um adversário. Como diz a voz popular, "águas passadas não movem moinhos".