É difícil descortinar uma redacção onde se respire uma certa tranquilidade criativa, e mesmo no sector público, dominado pelo Grupo RTP – incluindo a agência de notícias Lusa – vive-se uma tensão crescente, não tanto pela incerteza do emprego, mas pelas mudanças de filosofia na gestão administrativa e editorial, que fazem temer pela independência dos jornalistas nesses media.

Em data recente, soube-se, por exemplo, que o Governo autorizou o plano da RTP que prevê a saída voluntária de centena e meia de colaboradores ainda este ano, uma medida integrada no processo infindável de reestruturação do operador público de televisão e rádio.

Há muito que a RTP utiliza este modelo, a pretexto de diminuir o peso dos seus efectivos, embora, posteriormente, proceda a novas admissões, subordinadas com frequência a critérios mal explicados, consoante os interesses do poder político do dia.

Claro que quaisquer reestruturações que visem reduzir quadros contam com a oposição sindical declarada, agravada pelo projecto de sinergias nas redacções da RTP, RDP e Lusa, visto como uma ameaça para a autonomia editorial.

Adivinha-se, portanto, um clima de instabilidade nos media públicos, num terreno propicio à luta sindical, que precisa de um novo fôlego para se afirmar.

Recorde-se que o Sindicato dos Jornalistas, num bizarro “golpe de rins” em função da quebra de associados, tem em discussão uma proposta de abertura a trabalhadores não jornalistas que, a ser aprovada, o transforma, como já aqui foi escrito, numa espécie de “albergue espanhol” …

Numa perspectiva mais ampla, verifica-se que a paisagem mediática continua condicionada pela asfixia financeira das empresas, vertiginosa quebra de confiança do público e pelo avanço da Inteligência Artificial (IA) nas redacções.

O sector enfrenta um momento de profunda volatilidade e redefinição estrutural, onde os desafios económicos se cruzam com dilemas éticos e tecnológicos, críticos para a sobrevivência do jornalismo livre.

E se a precariedade laboral tem vindo a ganhar relevo, o desaparecimento de vários títulos, sobretudo na Imprensa regional - que parecia ser um “nicho” de mercado sustentável por um público mais fidelizado -, só piorou as coisas.

Note-se que conforme se verifica em estudos da Marktest e com base no Instituto Nacional de Estatística (INE), o País perdeu mais de metade (cerca de 58% a 60%) dos seus jornais e revistas nas últimas duas décadas (em estimativa, Portugal perdeu 1204 publicações periódicas em 20 anos).

Mas se considerarmos o ecossistema desde 2000 até hoje, este encolheu mais de 2100 publicações, passando para cerca de 840 a 860 títulos nos anos mais recentes.

Esta quebra profunda criou "desertos de informação" locais. Mais de 83 municípios em Portugal terminaram os últimos anos sem qualquer jornal ou publicação periódica registada.

As razões para o desaparecimento de tantos títulos são várias, designadamente, a migração para o digital; a queda continuada das receitas de publicidade - devido ao investimento publicitário tradicional ter sido desviado para as grandes plataformas e redes sociais da internet; e os custos de produção associados, desde o aumento do preço do papel e da impressão até aos canais de distribuição, o que asfixiou financeiramente as redacções regionais de menor dimensão.

Por isso, o governo elaborou um Plano de Acção para os Media , o qual engloba várias medidas estruturais e um investimento global para apoiar o jornalismo, modernizar o sector e combater os “desertos de notícias”.

É uma boa noticia, embora peque por tardia, no rasto da extinção de numerosos títulos.

O plano organiza-se em torno de quatro eixos prioritários, com o reforço do porte pago, simplificação e obrigatoriedade de publicação das deliberações das câmaras municipais e juntas de freguesia na imprensa regional ou digital local e criação de um programa específico para garantir a distribuição física de jornais em regiões despovoadas.

Oxalá, contudo, não sejam medidas apenas no papel e que a sua aplicação possa contribuir para salvar ainda alguns títulos que estão no limite das suas forças, acossados pela deserção conjugada de leitores e de investimento publicitário.

A Imprensa não pode desaparecer numa esquina do tempo.