A ERC anunciou uma reunião com a distribuidora de Imprensa Vasp, empresa que se tornou monopolista no sector e que, num claro abuso da sua posição dominante, ameaçou suspender, já este mês, as rotas menos rentáveis, em oito distritos do interior: Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança.

O pretexto invocado para esta decisão draconiana, explicado pela própria empresa, é a “a situação financeira exigente resultante da contínua quebra das vendas de imprensa e do aumento significativo dos custos operacionais”.

O mais irónico é o facto de o primeiro responsável pela Administração da Vasp, o empresário Marco Galinha, ter referido que “a empresa de distribuição está ao lado dos editores” e que “estamos preocupados com as pessoas no interior”.

Imagine-se, como mero exercício de estilo, o que aconteceria se a Vasp não estivesse ao lado dos editores e das populações deserdadas do interior…

Note-se que este empresário é o mesmo que fez um excelente negócio com o governo, ao conseguir vender, recentemente, a posição accionista que detinha na Lusa, quando o Estado já dispunha de uma participação maioritária no capital da agência. Um negócio da China…

Animado, talvez, por esta proeza, o mesmo empresário quer agora "forçar a mão” ao governo, para este financiar a operação da Vasp onde esta for menos rentável, embora não haja dados públicos acessíveis sobre a situação global da empresa, adquirida pelo Grupo Bel, de Marco Galinha, à Cofina, em 2024, por 4,5 milhões de euros. 

Um valor demasiado alto para um investidor que não confiasse nos resultados da distribuidora ou não dispusesse de um estudo financeiro prévio adequado.

Não terá sido por acaso que o ministro Leitão Amaro, com a tutela da Comunicação Social, pressionado pelas repercussões da ameaça da Vasp, veio a publico ressalvar que não quer criar nenhum instrumento de dependência", que envolva o dinheiro dos contribuintes, direccionado para uma empresa específica, sinalizando que  "não quero passar cheques a nenhuma empresa em concreto".

Uma coisa é certa: apesar das reacções de estranheza e de oposição a este possível corte de rotas da Vasp, incluindo a posição conjunta dos directores de jornais, a empresa limitou-se a adiar a decisão, e prossegue as diligências para “levar a água ao seu moinho”, entre as quais se inclui a reunião com a Entidade Reguladora.

Europa fora são vários os modelos de distribuição de jornais disponíveis e se a distribuição centralizada não é inédita, em certos casos com apoio directo do Estado, fortemente regulado, tão pouco as fórmulas de natureza monopolista, com variantes regionais por vezes, consoante a dimensão dos mercados.

A alternativa, porém, se poderá passar pelo aperfeiçoamento do modelo existente, corrigindo eventuais distorções ou assimetrias do mercado, já não poderá contemporizar com pressões desencadeadas pelo distribuidor monopolista, ao ameaçar, com data marcada, a interrupção de um serviço em que opera sem concorrência, agravando o isolamento das populações locais.  

E esse é um gesto absolutamente inaceitável.