Nas últimas décadas do século passado houve um rejuvenescimento gradual das redacções dos media portugueses, mas esta substituição geracional fez-se, em muitos casos, por pressão empresarial, ditada por poupanças de escala, atendendo a que a contratação de novos profissionais ficava a custos substancialmente mais baixos, quando comparada com a folha salarial dos jornalistas veteranos.  

Esta mudança profunda nos quadros editoriais, se bem que positiva em termos curriculares em relação aos jovens jornalistas admitidos, na sua maioria, com formação académica superior, arrastou, também, uma consequência mal avaliada de inicio – a perda de memória dessas redacções.

De facto, o desequilíbrio geracional que aconteceu, desde a base às chefias, contribuiu para o esquecimento alargado do histórico não vivido, como se os passados pouco importassem, perante a dimensão dos novos desafios, sobretudo em termos tecnológicos.

E, apesar de o suporte documental estar hoje “à mão de semear”, através da Wikipédia e de uma imensa variedade de outras fontes que pululam na Internet – agora reforçadas pelo advento da Inteligência Artificial, que simplifica qualquer pesquisa - , a verdade é que se multiplicam, diariamente, os exemplos de jornalismo mal informado, quer pelo facto de os autores não guardarem memória de acontecimentos anteriores, quer pela impreparação dos jornalistas no terreno, exibindo amiúde a inexistência ou insuficiência de um conveniente  “trabalho de casa”.

Estas limitações são explicadas, por vezes, com a pressão a que estão sujeitos os profissionais, em especial, quando trabalham nos meios audiovisuais ou nos jornais de suporte digital, cuja lógica obedece aos imperativos da instantaneidade da informação.

Embora verdadeira, essa pressão não justifica tudo, muito menos o desconhecimento elementar da matéria que está a ser tratada ou investigada.   

É uma tendência visível, designadamente, nos directos, em que as televisões agora são férteis, onde o jornalista se limita, com excessiva frequência, ao papel passivo de “cabo de microfone”, sem cuidar de confrontar os protagonistas -  sejam agentes políticos ou outros -, com as perguntas que não desejam, nem esperam.

É uma realidade que abala a credibilidade do jornalismo e enfraquece o seu papel de mediador. Ou seja: com a perda da memória nas redacções, susceptível de comprometer a percepção e a relevância daquilo que vai para além da “espuma dos dias”, confirmou-se, entretanto, o desmembramento de vários arquivos históricos de alguns jornais, fundamentais para o conhecimento, através das suas páginas, da natureza e do pulsar do País, em épocas recuadas, quando a Imprensa quase não tinha concorrência e era um dos principais veículos de informação.

Mas essa é matéria para tratarmos mais adiante, tal como o estranho encerramento do Museu Nacional de Imprensa no Porto, desde 2022. O passado, afinal, tem mesmo pouca importância…