O ultimato da distribuidora Vasp com oito distritos no bolso…
Oito distritos do interior – na prática metade do País – estão sob a ameaça da VASP, que admitiu suspender a distribuição de jornais naquelas zonas, a partir de janeiro.
A distribuidora, que se tornou monopolista, é controlada na totalidade, desde 2024, pelo empresário Marco Galinha, que, recentemente, conseguiu a proeza de vender ao Estado a sua participação na Lusa, quando o mesmo Estado já dispunha de confortável maioria.
Houve tempo em que os jornais eram donos da sua própria distribuição, competindo entre si para chegar mais longe e mais cedo, com recurso a frotas exclusivas de carrinhas e ao comboio para certos destinos, designadamente, para o Porto.
Nessa época, com piores estradas e ligações do que há hoje, a imprensa, mesmo a vespertina publicada em Lisboa, chegava no mesmo dia a quase todo o País, de norte a sul.
Entretanto, os principais jornais contribuíram para a formação de distribuidoras comuns, das quais a VASP é a sobrevivente, depois de ter adquirido a Interpress.
E, como monopolista na distribuição, a VASP acredita que pode ditar as regras do jogo e ser financiada pelo Estado para cobrir as regiões onde a sua operação é menos lucrativa, objectivo do ultimato nem sequer encoberto.
O raciocínio é simples: se o Estado já comprou a última fatia privada da Lusa, sem precisar desta para nada, também poderá pagar os défices de exploração da VASP.
É certo que o panorama da imprensa se agravou nos últimos anos, com a quebra de tiragens, sendo a circulação residual a realidade de alguns títulos, incluindo históricos e centenários como o Diário de Notícias, controlado pelo mesmo empresário que domina a VASP.
É certo, também, que mudou o paradigma da informação, e que os títulos em suporte de papel - sejam de vocação nacional, regional ou local - lutam pela sua sobrevivência em condições adversas do mercado, concorrendo com a instantaneidade noticiosa das televisões e da internet, e com a rede de “comentariado” instalado no audiovisual.
É uma luta desigual, agravada pelo facto de a distribuidora monopolista não ter sabido ou conseguido agilizar a sua operação, de forma a não comprometer as rotas menos rentáveis.
O interior do País, que já enfrenta problemas antigos de marginalização e de despovoamento, está agora em risco de ficar privado do acesso à imprensa, perante o ultimato assumido pela VASP.
Há novos “desertos noticiosos “à vista, se o governo não souber ou não quiser forçar o monopolista a cumprir as suas obrigações, apesar das ambiguidades legais.
Em novembro de 2023, o empresário Marco Galinha, que passou a ser o “homem forte“ da VASP, declarava piedosamente numa entrevista à Lusa, que “eu vim para os media com amor a Portugal, com amor à portugalidade e a acreditar seriamente que este projeto de língua portuguesa era uma nova forma de afirmarmos a liderança neste mundo global".
Com esta decisão draconiana, de privar metade do País da leitura de jornais e revistas, aparentemente esfumou-se o amor do empresário pela “portugalidade” e pelo projecto de liderança da língua portuguesa “neste mundo global”.
O arrivismo, por vezes, tem consequências. E a memória é curta…