Com o desaparecimento progressivo das verbas estrangeiras que durante anos sustentaram muitos meios de comunicação no exílio, redacções independentes da Rússia, de Cuba e de Myanmar começam a reinventar-se, apostando em novos produtos, serviços digitais e modelos de negócio que lhes permitam sobreviver sem depender de subsídios internacionais. 

A situação tornou-se particularmente crítica após a administração Trump congelar, no início de 2025, milhares de milhões de dólares destinados à ajuda externa, incluindo cerca de 270 milhões atribuídos à promoção de “media independentes e do livre fluxo de informação”. Este corte abalou a rede global de apoio ao jornalismo sem fins lucrativos, deixando dezenas de redacções em risco de fechar portas. O Instituto Reuters dá a conhecer as suas realidades.

O caso da Meduza 

No Outono de 2025, a Meduza, considerado o maior veículo em língua russa sediado no exílio, lançou um aviso aos seus leitores: “A Meduza está em apuros – estamos a ficar sem financiamento. Já cortámos salários e despedimos funcionários, mas não é suficiente.” O pedido de adesão de novos apoiantes mensais tornou-se vital, já que, declarada ilegal na Rússia, a publicação passou a depender quase exclusivamente de donativos e de financiamento colectivo. 

Paper: a criação de uma VPN lucrativa 

Se a Meduza apostou nos leitores, o veículo russo Paper encontrou a saída num produto inesperado: uma VPN própria. Fundado em São Petersburgo em 2012, o Paper viu o seu site ser bloqueado pelas autoridades após criticar a guerra na Ucrânia, levando a equipa a exilar-se na Geórgia. A medida destruiu o seu modelo de receitas, assente em publicidade, estudos de mercado e eventos. 

“Naquele momento, investimos todo o nosso dinheiro para salvar a equipa e não despedir ninguém”, recordou Maria Rzaeva, cofundadora e directora comercial. O veículo lançou uma campanha de donativos, mas rapidamente percebeu que tal não bastaria. 

A solução surgiu quando os programadores decidiram criar uma VPN para permitir que os leitores na Rússia contornassem o bloqueio. O que começou como uma ferramenta para a comunidade tornou-se um negócio em expansão. “Não tínhamos a intenção de construir um serviço em grande escala que muitas pessoas utilizariam. Queríamos apenas dar à nossa comunidade uma ferramenta para que pudessem aceder ao nosso site bloqueado”, explicou Rzaeva. 

A procura superou todas as expectativas. “Precisávamos de uma VPN que não só garantisse a segurança dos dados, mas que também funcionasse num estado totalitário com uma ampla censura”, afirmou. Com o crescimento rápido, a VPN converteu-se na principal fonte de receitas, permitindo ao Paper aumentar a equipa de 50 para 80 trabalhadores. 

A estratégia diversificada continua: eventos, um espaço de coworking na Geórgia, uma filial local (Paper Kartuli) e o desenvolvimento de novos produtos digitais. Actualmente, segundo a administração, cerca de 70% do volume de negócios provém de receitas comerciais e apenas 30% de subsídios. A empresa espera atingir a sustentabilidade financeira total dentro de dois a três anos.  

El Toque aposta em subscrições financeiras 

No caso do veículo cubano El Toque, a redução abrupta de fundos americanos obrigou a uma reestruturação radical. A redacção, que operava no exílio desde 2019, já tinha reduzido a dependência de doadores internacionais para 80% do seu orçamento, mas ainda assim sofreu um corte devastador. Em 2024, o seu orçamento era de 970 mil dólares, “dos quais 80% provinham de donativos, sendo a outra metade de fontes americanas”, explicou o editor-chefe José Jasán Nieves Cárdenas. 

Perante a perda súbita de apoios, o veículo teve de despedir metade da sua equipa. A reorganização começou de imediato. “Desde então, todas as segundas-feiras, na nossa reunião editorial, também discutimos dinheiro — quanto ganhámos na semana passada em diferentes plataformas, e como podemos optimizar o nosso conteúdo e formatos para melhor aproveitar as estratégias de monetização nessas plataformas”, afirmou Nieves. 

A redacção decidiu transformar a sua especialização em dados económicos num produto comercial: uma subscrição paga para empresários e investidores com acesso antecipado a informação financeira sobre Cuba. “Estamos a transformar todos estes dados num pacote de informação para os empresários, dando-lhes acesso antecipado a insights cruciais sobre as finanças de Cuba para que possam tomar decisões mais bem informadas”, explica. 

Paralelamente, o El Toque prepara um veículo noticioso dedicado à diáspora cubana, que poderá atrair publicidade, patrocínios e mais donativos, já que a comunidade emigrada tem maior capacidade financeira. “O cenário de financiamento através de verbas está definitivamente a morrer”, resumiu Nieves. “Precisamos de mudar o modelo baseado em verbas para um modelo autossustentável.” 

Frontier Myanmar reforça o programa de membros 

Também a Frontier Myanmar, agora sediada no exílio no Sudeste Asiático, enfrenta um futuro incerto após os cortes dos EUA. Com os meios independentes proibidos no país desde o golpe de 2021, o veículo já dependia amplamente de donativos para sobreviver. 

A editora-chefe, Thu Thu Aung, descreveu a situação com franqueza: “A situação é bastante grave, mas estamos a torcer pelo melhor cenário e a trabalhar para isso. Não podemos cortar custos ainda mais, pois já estamos a operar com uma estrutura mínima.” 

A resposta passa por reforçar o programa de membros, lançado em 2020 e responsável por cerca de um terço do orçamento. “Como membro, não recebe apenas informações – torna-se parte de uma comunidade”, afirmou Aung, sublinhando que o jornalismo independente exige agora um envolvimento directo dos leitores. 

A equipa prepara novos conteúdos multimédia, eventos e até exposições, mas admite que estas iniciativas dificilmente bastarão. “Este é um momento crítico. Precisamos do apoio tanto dos membros como dos doadores para sobreviver”, alertou. 

A crise global do financiamento jornalístico deixou dezenas de redacções no exílio à beira do colapso. Além das dificuldades financeiras, estas equipas enfrentam perseguições políticas, riscos de segurança e as limitações próprias de trabalhar longe dos seus países. 

Mas estas adversidades estão também a estimular inovação e muitas destas redacções estão a reinventar-se para garantir a sobrevivência. E, apesar dos obstáculos, partilham uma convicção comum: o jornalismo independente só terá futuro se encontrar modelos autossustentáveis, capazes de resistir às flutuações políticas e à volatilidade dos fundos internacionais. 

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