Um ano após o encerramento do programa da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), os meios de comunicação social independentes russos continuam a operar, mas num ambiente mais restritivo, com menos financiamento e oportunidades de expansão. 

A decisão, tomada por Donald Trump, de congelar milhares de milhões de dólares destinados a projectos de ajuda (incluindo mais de 268 milhões para apoiar media independentes) teve um impacto profundo num sector já fragilizado pela repressão interna na Rússia. 

Ao The Fix, um responsável de um órgão regional russo, que pediu anonimato por razões de segurança, descreve o choque inicial: “Ficámos muito satisfeitos por termos dois anos de relativa estabilidade pela frente”, recorda, referindo-se a um contrato recentemente assinado com uma fundação financiada pelos EUA. Pouco depois, esse apoio desapareceu. “O impacto foi comparável ao início da guerra”, afirma.

Sobrevivência num contexto adverso 

Após a invasão da Ucrânia em 2022 e a imposição de leis de censura mais severas, muitos destes meios optaram por operar a partir do estrangeiro, numa tentativa de preservar a independência editorial e proteger os seus jornalistas. 

Apesar das dificuldades, a maioria conseguiu resistir. “A resiliência demonstrada pelos media foi maior do que o esperado. É notável que não tenha havido qualquer encerramento”, afirma George Leech, ligado a um projecto de apoio a media russos e bielorrussos no exílio. 

Segundo o mesmo responsável, esta resistência deve-se, em parte, ao facto de o sector já estar habituado a lidar com crises sucessivas. “Este é um sector que tem demonstrado continuamente resiliência, encontrando constantemente novas formas de trabalho”, sublinha. 

Ainda assim, o cenário actual é mais limitado. O financiamento disponível diminuiu significativamente e os apoios tornaram-se mais curtos. “O horizonte de planeamento diminuiu significativamente”, explica a fonte do órgão regional, referindo que os subsídios, que antes podiam durar até dois anos, são agora frequentemente concedidos por apenas seis meses. 

Novos riscos e adaptações 

A escassez de recursos trouxe também novos desafios. Alexei Obukhov, editor do veículo independente russo SOTA, destaca a dificuldade em encontrar profissionais especializados em angariação de fundos. “O especialista mais raro no mercado actualmente (…) é um especialista em angariação de fundos”, afirma. 

Perante a falta de alternativas, alguns meios têm procurado fontes de financiamento inovadoras, por vezes com riscos associados. Um exemplo é o desenvolvimento de serviços próprios de VPN (redes privadas virtuais), que permitem contornar a censura digital na Rússia. No entanto, casos recentes revelaram vulnerabilidades de segurança em algumas dessas ferramentas. 

A nova realidade financeira está também a limitar a capacidade de inovação no sector. “Agora é muito difícil para novas iniciativas (…) se destacarem”, admite a fonte do meio regional. Dentro das organizações já estabelecidas, a margem para experimentar novos formatos ou projectos também diminuiu: “Lançar um novo projecto (…) já não é uma opção”. 

A tendência reflecte-se no mercado como um todo. “Desde o início da guerra, surgiram vários veículos (…) No entanto, desde 2024, não surgiram novos”, observa Obukhov, acrescentando que lançar um novo projecto se tornou “uma ideia de negócio insensata”. 

George Leech concorda: “Quando havia mais financiamento disponível, havia mais flexibilidade no sistema (…) Provavelmente, há menos espaço agora”. Segundo o responsável, os financiadores privilegiam actualmente organizações já estabelecidas, com provas dadas de alcance e impacto. 

Barreiras tecnológicas agravam cenário 

Além das dificuldades financeiras, os media independentes enfrentam também obstáculos tecnológicos crescentes. As autoridades russas têm vindo a reforçar o controlo sobre a internet, dificultando o acesso a conteúdos produzidos no estrangeiro. 

“Vai ser cada vez mais difícil, tecnologicamente, chegar ao público na Rússia”, alerta Leech, sublinhando que apenas organizações com recursos significativos terão capacidade para ultrapassar essas barreiras.

(Créditos da imagem: Wikipedia)