Jornalistas com piores condições no Médio Oriente
A intensificação do conflito no Médio Oriente, após a ofensiva lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão no final de Fevereiro, colocou jornalistas numa situação cada vez mais perigosa e precária. Profissionais da comunicação social trabalham sob ataques aéreos, com acesso limitado à internet e sob a constante vigilância do regime iraniano, segundo denúncias dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
A organização alertou para o agravamento das condições de trabalho dos repórteres na região e apelou a todas as partes envolvidas no conflito para que garantam a segurança dos jornalistas e o acesso à informação.
“À medida que a região entra em chamas, o acesso a informações fiáveis sobre a guerra após o ataque levado a cabo pelos Estados Unidos e Israel é mais essencial do que nunca”, afirmou Jonathan Dagher, responsável pelo departamento do Médio Oriente dos RSF. “Todas as partes envolvidas nesta guerra no Irão e, de forma mais ampla, no Médio Oriente são obrigadas, ao abrigo do direito internacional, a garantir a segurança dos repórteres e a sua liberdade para realizar o seu trabalho.”
Dagher sublinhou ainda que “a segurança dos jornalistas não é negociável” e que “a guerra não deve, em circunstância alguma, impedir o trabalho da imprensa”.
Repórteres sob bombardeamentos
Desde o início da ofensiva, lançada a 28 de Fevereiro, os jornalistas no Irão enfrentam simultaneamente os efeitos da guerra e a repressão das autoridades. De acordo com dados do Crescente Vermelho iraniano, os ataques já provocaram 787 mortos, entre os quais vários comandantes militares e o líder supremo iraniano, Ali Khamenei.
Um jornalista independente, que pediu anonimato por receio de represálias, descreveu aos RSF a pressão constante exercida sobre os profissionais da comunicação social. “Os jornalistas estão a trabalhar sob bombardeamentos estrangeiros e a receber telefonemas ameaçadores das autoridades”, afirmou.
Segundo o repórter, muitos profissionais foram obrigados a abandonar Teerão, a capital iraniana. Contudo, mesmo as cidades para onde fugiram não estão imunes aos ataques.
“Os ataques foram muito intensos. Os sons aterradores das explosões e dos caças continuaram até cerca das duas da manhã, depois recomeçaram por volta das oito, quando fomos acordados por outra explosão”, relatou.
Censura e ameaças de prisão
Para além do perigo físico, os jornalistas enfrentam ameaças directas do regime iraniano. O canal de televisão estatal advertiu repetidamente que qualquer actividade considerada “vantajosa para o inimigo” poderá ser severamente punida.
“Nenhum jornalista independente tem permissão para trabalhar”, disse outro repórter baseado em Teerão. “Mesmo aqueles que foram a áreas atingidas por explosões, com autorização do governo, por vezes eram detidos brevemente e tinham todas as suas fotografias apagadas.”
A situação ocorre num contexto de forte restrição ao acesso à informação. Desde os protestos que abalaram o país em Dezembro de 2025, as autoridades mantêm um bloqueio quase total à internet.
Embora alguns jornalistas consigam, ocasionalmente, aceder à rede, a maioria enfrenta cortes frequentes ou restrições severas. Segundo testemunhos recolhidos pelos RSF, a censura também é selectiva.
“Jornalistas e meios de comunicação que ecoam a narrativa do governo geralmente têm acesso à internet e cartões SIM sem filtragem”, explicou uma repórter que abandonou Teerão. “Os jornalistas independentes estão sujeitos a restrições muito mais severas.”
Como resultado, a cobertura mediática no país tornou-se limitada e pouco precisa. “As reportagens são vagas e imprecisas”, afirmou uma jornalista ainda a trabalhar na capital iraniana.
Um dos exemplos citados pelos repórteres é a forma como a imprensa nacional noticiou a morte de Khamenei. “Mesmo jornais que não simpatizavam com ele publicaram apenas elogios”, explicou um jornalista. “Não houve qualquer menção ao facto de as ruas estarem cheias de pessoas a celebrar a sua morte.”
Pressão regional sobre a imprensa
O impacto da guerra não se limita ao Irão. Após os ataques iniciais, Teerão retaliou contra vários países do Golfo, incluindo Arábia Saudita, Qatar, Bahrein, Omã, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait, alargando o conflito e dificultando ainda mais o trabalho da imprensa.
Sirenes de ataque aéreo também soaram na Jordânia, enquanto mísseis foram disparados contra Israel a partir do Irão e do Líbano. No Sul do país, ataques do grupo Hezbollah contra Israel desencadearam novos bombardeamentos israelitas, forçando vários jornalistas a abandonar as suas casas.
Para os RSF, a escalada do conflito ameaça transformar o acesso à informação numa das primeiras vítimas da guerra. A organização insiste que, mesmo em tempo de conflito armado, os Estados têm a obrigação de proteger os jornalistas e garantir que a população possa ter acesso a informação fiável sobre os acontecimentos.
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