Como os “media” independentes no exílio se tornaram peça essencial para o jornalismo livre
Um artigo do The Fix mostra como os media independentes no exílio se tornaram uma peça essencial para manter vivo o jornalismo livre em países onde a liberdade de imprensa está a desaparecer. Num contexto em que “94 dos 180 países são agora classificados pelos Repórteres Sem Fronteiras como ‘difíceis’ ou ‘muito graves’”, muitos jornalistas já não conseguem trabalhar nos seus próprios países sem risco de prisão, perseguição ou censura.
O estudo do JX Fund e da The Fix Research and Advisory identifica pelo menos 280 órgãos de comunicação social exilados em apenas oito países, entre eles Rússia, Irão, Bielorrússia e Myanmar. Estes meios distinguem-se das tradicionais publicações da diáspora porque, apesar de operarem no estrangeiro, continuam focados no público do país de origem e mantêm “uma genuína independência editorial”.
O texto explica que este fenómeno só se tornou possível graças à distribuição digital e ao uso generalizado de VPN. “Uma redacção sediada em Berlim pode agora publicar um artigo, receber dicas de fontes em Minsk via Telegram e ter milhões de pessoas na Bielorrússia a lê-lo em questão de horas.” Assim, o jornalismo exilado consegue contornar bloqueios estatais e continuar a chegar às populações locais.
O alcance destes media é muito maior do que normalmente se imagina. Na Bielorrússia, entre “um quarto e 39% dos residentes” afirmaram consumir media independentes exilados, apesar dos riscos legais. Em sete dos oito países analisados, os meios exilados geraram “aproximadamente 484 milhões de visualizações mensais no YouTube só em 2025”.
O artigo destaca também a enorme capacidade de inovação destas redacções. Perante censura, perseguição judicial e falta de receitas, muitos meios criaram soluções tecnológicas próprias. O exemplo mais conhecido é o da Meduza, na Rússia, que desenvolveu os chamados “Links Mágicos”, um sistema que cria URLs únicos para escapar aos bloqueios do regime russo. A publicação lançou ainda campanhas de donativos anónimos para proteger os apoiantes dentro do país.
Outros meios criaram modelos colaborativos e redes de jornalismo cidadão. A IranWire e a Enab Baladi organizaram redes de colaboradores locais, enquanto a DVB, em Myanmar, passou a utilizar inteligência artificial para analisar imagens de conflitos. O YouTube tornou-se uma plataforma central de distribuição, mesmo em países onde os governos tentam restringi-lo.
O texto sublinha ainda o enorme desequilíbrio financeiro entre propaganda estatal e jornalismo independente. Só a Rússia terá gasto “aproximadamente 2 mil milhões de euros em propaganda e censura” em 2024, enquanto todos os media independentes russos no exílio terão operado com cerca de 41 milhões de euros, uma diferença de “49 para 1”.
Apesar das dificuldades, o The Fix conclui que estes meios já não são projectos temporários de emergência. Tornaram-se estruturas permanentes de informação independente e fundamentais para o jornalismo internacional. “Em muitos locais, o jornalismo independente não desapareceu completamente. Apenas migrou para o exterior.”
(Créditos da imagem: Pexels)